Uma obsessão pela alimentação saudável, que deveria ser sinônimo de bem-estar, pode se transformar em sofrimento psicológico e isolamento social.
É o que mostra pesquisa coordenada pelo professor Wanderson Roberto da Silva, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), recentemente publicada em revista científica internacional — a Psychology, Health & Medicine, do Reino Unido. Para fazer o estudo, a equipe de pesquisadores acompanhou 1.359 brasileiros fisicamente ativos — a maioria mulheres, com média de 29 anos.
O estudo identificou características de pessoas mais suscetíveis à chamada ortorexia nervosa — comportamento marcado por regras rígidas, exclusão de alimentos considerados “impuros” e ansiedade em torno da dieta.
Silva contou com a participação dos pesquisadores Sarah Queiroz Corrêa Alves Peres, Maurício Almeida e Giovanna Soler Donofre, integrantes da Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas) e da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). O estudo teve apoio e financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
O professor Wanderson Roberto da Silva participou nesta sexta-feira (5) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, sendo entrevistado pelo jornalista Germano Oliveira. Na entrevista, ele explicou o que significa ortorexia e as consequências à saúde.
A seguir, reproduzimos trechos dessa entrevista com o professor Silva. Ao final dela é possível acessar o link para assistir à íntegra, em vídeo.
Germano Oliveira – Como é que esse problema aparece na prática?
Wanderson Roberto da Silva – A ortorexia nervosa é um termo cunhado pelo médico americano Steven Bratman e trata-se de uma preocupação exacerbada com a alimentação para que ela seja o mais saudável, correta e “pura” possível. Ainda não podemos classificá-la como um transtorno alimentar, segundo os manuais clínicos. Ela se diferencia de anorexia, bulimia ou compulsão alimentar, que geralmente estão ligados à imagem corporal e ao peso.
Na ortorexia, o foco é qualitativo, voltado à saúde. Como nutricionistas e profissionais de saúde, orientamos as pessoas a consumirem alimentos naturais, frutas, hortaliças. Mas quando o comportamento se torna o centro da vida do indivíduo, torna-se problema. Por exemplo: alguém que se recusa a comer ultraprocessados não tem, necessariamente, ortorexia. Mas se também recusa frutas por não serem orgânicas, isso acende um alerta clínico. O comportamento pode estar associado a isolamento social, ansiedade, estresse e sintomas depressivos.
Germano Oliveira – Esse excesso de cuidado pode causar desequilíbrios nutricionais?
Wanderson Silva – Sem dúvida. O excesso de cuidado pode levar a desequilíbrios. É claro que desejamos que a população consuma mais alimentos in natura. Porém, quando há falta de conhecimento técnico, a pessoa passa a excluir alimentos que poderiam contribuir para a saúde. Alguns excluem aveia, certos tipos de granola, iogurtes que não atendem a um critério pessoal de pureza. Isso não significa que não devam ler rótulos, mas excluir alimentos sem critério pode ser prejudicial.
Algumas pessoas evitam totalmente frutas porque não são orgânicas. Isso pode ser um problema. Muitas exclusões são baseadas em percepções individuais, não necessariamente em diretrizes científicas. Um exemplo: excluir glúten sem necessidade clínica não faz sentido. Pessoas com doença celíaca ou sensibilidade devem evitar glúten, mas as demais não precisam. A exclusão não traz benefícios comprovados.
Germano Oliveira – Quais são os sintomas da ortorexia e o que ela provoca na saúde?
Wanderson Silva – A ortorexia não é um transtorno nem uma doença, mas um comportamento disfuncional. Suas características são: regras rígidas e autoimpostas sobre alimentação; tempo excessivo gasto planejando, selecionando e preparando alimentos — alguém que gastaria 40 minutos pode gastar 3 ou 4 horas; isolamento social para evitar situações com comida; desconfiança até dos rótulos, chegando a ligar para empresas para verificar ingredientes. Apesar de haver critérios internacionais propostos, ainda há debates. Não está claro se há relação direta com imagem corporal.
Geralmente o foco é metabólico: adequar glicemia, colesterol, triglicérides etc., mesmo quando esses marcadores já são normais. Exemplo: alguém com glicemia de 88 mg/dL — dentro do esperado — pode reduzir drasticamente carboidratos acreditando que isso evitará diabetes. É uma preocupação extrema com não adoecer. A alimentação saudável reduz riscos, mas não garante ausência de doenças.
Germano Oliveira – A pessoa fica tão obcecada que vai a uma festa e não come nada, se isola, e isso acaba prejudicando a saúde mental?
Wanderson Silva – Exatamente. É aí que relacionamos ortorexia à saúde mental. Algumas pessoas têm alimentação rigorosa porque são atletas, fisiculturistas ou trabalham em áreas onde a imagem corporal importa — e há uma razão profissional. Mas quando ultrapassa o limiar da normalidade e causa sofrimento, surgem problemas. A pessoa percebe que está mais sozinha, questiona se aquilo é adequado, e sem apoio social o sofrimento aumenta. Além disso, muitas tentam convencer outras pessoas a seguir a mesma alimentação. Isso gera conflitos familiares, sociais e profissionais. A pessoa passa a julgar o que os outros comem, criando mal-estar. Com o tempo, não é só ela que se isola: ela é isolada pelo grupo. Geralmente, quando chega ao consultório, já há sofrimento intenso.
Germano Oliveira – Na pesquisa que vocês fizeram, sob sua coordenação, ficou confirmado que mulheres, pessoas desempregadas e indivíduos com histórico de transtorno alimentar têm maior risco de desenvolver esse processo de ortorexia. Por que isso acontece?
Wanderson Silva – Bom, a gente tem alguns estudos mostrando evidências que corroboram os resultados que encontramos. Então, ficamos confortáveis em mencionar que essas características estão proeminentes nesses grupos, e as justificativas também vão ao encontro do que imaginamos que possa estar acontecendo com eles. No caso das mulheres, há uma série de questões para além da ortorexia que as colocam em um cenário de vulnerabilidade.
A restrição alimentar é muito comum entre mulheres, e elas também são mais propensas a buscar tratamentos de saúde do que os homens. Devido à pressão social — não necessariamente ligada ao corpo, mas ao modo de se alimentar, que “deve ser mais saudável” e em menores porções — algumas mulheres mais suscetíveis podem aumentar as chances de se envolverem nesse tipo de comportamento, às vezes como forma de alcançar algum objetivo específico. Indivíduos com histórico de transtorno alimentar, como anorexia nervosa, costumam ser muito céticos e restritivos.
As evidências mostram que quem tem anorexia pode ter tido características de ortorexia em algum momento, ou o contrário. Quanto às pessoas sem atividade laboral formal, essa evidência nos trouxe uma reflexão: talvez isso seja até um desfecho do próprio comportamento.
Se a pessoa gasta grande parte da vida dedicada à alimentação, isso pode influenciar no desempenho no trabalho, ou até mesmo na ida ao trabalho presencial. Mas não podemos garantir causalidade — investigamos apenas se a pessoa tinha ou não emprego formal, e relacionamos isso com a variável de ortorexia nervosa.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


