Pela primeira vez desde o início da série histórica do Instituto Quaest, em maio de 2024, a televisão brasileira perdeu a liderança como o principal meio de informação política no país.
Segundo os dados de janeiro de 2026, 39% dos brasileiros afirmam se informar agora pelas redes sociais, enquanto a TV recuou para 34%. Em dezembro passado, ambos os meios registravam 35%. A análise desses dados é de Fábio Vasconcellos, professor associado da Faculdade de Comunicação da UERJ e pesquisador do Instituto Representação e Legitimidade Democrática (ReDem).
Para o professor Vasconcellos, doutor em Ciência Política, os números indicam uma mudança estrutural e não apenas um erro estatístico. “Essa Quaest mostrou pela primeira vez um uso maior de redes sociais para consumo de informação política. Superou a TV”, afirma o pesquisador, ressaltando que, embora os dois meios tenham flutuado próximos à margem de erro anteriormente, agora há uma inflexão clara.
Segundo o professor, “algo parece ter mudado” e os próximos levantamentos devem confirmar se este é o novo padrão consolidado para o país.
A direita na vanguarda digital
Ao cruzar os hábitos de consumo com a ideologia, Vasconcellos desenvolveu o que denomina de “escala de intensidade digital e tradicional”. Segundo o pesquisador do ReDem, essa ferramenta permite posicionar os eleitores em um plano que revela distâncias profundas entre os campos políticos. O estudo aponta que a direita brasileira está significativamente mais adaptada ao ambiente digital do que a esquerda.
“Podemos verificar que o campo à direita está mais bem posicionado na escala digital que a esquerda”, explica Vasconcellos. Enquanto os eleitores “Lulistas” ocupam uma posição de maior preferência pela televisão, os “Bolsonaristas” e a “Direita não bolsonarista” transitam com maior intensidade pelas redes e portais. No centro desse mapa estão os “Independentes”, grupo que oscila entre os dois meios e que se torna o fiel da balança para as estratégias de comunicação em 2026.
O perigo do enrijecimento ideológico
A transição para o digital traz consigo o fenômeno da hipersegmentação. Para o professor Vasconcellos, o ambiente das redes estimula um consumo informativo que funciona como um espelho das próprias crenças do usuário. “Os eleitores buscam informações com as quais tendem a concordar, criando um círculo vicioso em que a posição política é reforçada, gerando um enrijecimento das preferências”, adverte o pesquisador.
Essa percepção fragmentada fica evidente quando se analisa o impacto das notícias sobre o governo federal. Segundo o estudo de Vasconcellos, enquanto a esquerda vê notícias majoritariamente positivas (até 62%), o grupo dos “Independentes” percebe uma realidade mais negativa (45% contra 19% de positivas). Entre os bolsonaristas, o divórcio informativo é quase total, com 76% afirmando ver apenas notícias negativas sobre a gestão Lula.
ReDem
A investigação de Vasconcellos está inserida nos trabalhos do Instituto Representação e Legitimidade Democrática (ReDem), uma rede de cooperação científica financiada pelo CNPq através do programa dos Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCTs). Sediado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o ReDem é dedicado a analisar as causas e as consequências da crise da democracia no país.
O instituto busca entender como a mudança nas percepções dos eleitores — agora cada vez mais mediadas por algoritmos — afeta a legitimidade do sistema político. “A complexidade desse fenômeno exige a adoção de uma abordagem multifatorial e multidirecional”, descreve o escopo do projeto ReDem. Para o professor Fábio Vasconcellos, a eleição de 2026 será o teste definitivo para essa transição, desafiando candidatos a dialogarem com um público que é “digital, mas nem tanto”, exigindo estratégias que transcendam a simples bolha das redes sociais.





