Ricardo Saadi assume a presidência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com a promessa de direcionar os esforços do órgão para o combate ao crime organizado, um foco que teria sido crucial para superar resistências à sua nomeação. A prioridade de Saadi busca desmistificar a percepção de que o Coaf poderia ser utilizado para investigações excessivas sobre políticos, uma preocupação levantada por setores políticos e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Delegado da Polícia Federal, Saadi enfrentou quase seis meses de questionamentos até sua confirmação. Críticos viam na sua indicação um risco de “influência excessiva da PF sobre um órgão que monitora movimentações bancárias de pessoas e empresas”. No entanto, seus apoiadores argumentam que a experiência do delegado em “lavagem de dinheiro, investigação de organizações criminosas e combate à corrupção” será fundamental para “aumentar a utilidade do órgão e a sinergia com a PF”.
A nomeação de Saadi ocorre em um momento em que o governo Lula é pressionado a apresentar resultados na segurança pública, especialmente diante da crescente “infiltração do crime organizado em diversos setores da economia”. O trabalho do Coaf, agora vinculado ao Banco Central e presidido por Gabriel Galípolo, é crucial para identificar e monitorar movimentações financeiras atípicas que possam estar ligadas a crimes como lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de drogas e financiamento ao terrorismo.
O que é o Coaf?
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) é um órgão de inteligência financeira essencial para o sistema de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo no Brasil. Sua principal função é receber, examinar e identificar ocorrências de movimentação financeira atípica que possam configurar indícios de ilícitos. Não se trata de um órgão de investigação policial, mas sim de um elo crucial entre as instituições financeiras e os órgãos de persecução penal. O Coaf processa as informações coletadas, transformando-as em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs), que são então encaminhados às autoridades competentes, como Polícia Federal, Ministério Público e outras polícias. Desempenha um papel preventivo e de suporte investigativo, sem a prerrogativa de quebrar sigilos bancários diretamente, mas atuando na análise de dados que as próprias instituições são obrigadas a reportar. Sua autonomia e eficiência são vitais para a credibilidade do Brasil no cenário internacional de combate a crimes financeiros.
O Foco de Ricardo Saadi na Luta Contra o Crime Organizado
Ricardo Saadi assume a liderança do Coaf com uma diretriz clara: direcionar o foco do conselho para o combate às organizações criminosas. Essa prioridade reflete a percepção de que o crime organizado é a principal ameaça à segurança pública e à estabilidade econômica do país, com sua “infiltração em diversos setores da economia”. O objetivo de Saadi e de seus apoiadores é maximizar a “utilidade do órgão” no rastreamento de fluxos financeiros que sustentam atividades ilícitas de grande escala, como tráfico de drogas, contrabando, extorsão e corrupção sistêmica ligada a essas redes. A intenção não é, segundo pessoas próximas, realizar uma “devassa” em contas de políticos de forma indiscriminada, mas sim utilizar a expertise do Coaf para descapitalizar e desarticular grandes estruturas criminosas. Saadi, com sua experiência em “lavagem de dinheiro, investigação de organizações criminosas e combate à corrupção”, busca “fortalecer o combate à lavagem de dinheiro” e otimizar a “sinergia com a PF”, sua instituição de origem, para que os relatórios de inteligência se traduzam em ações efetivas contra os principais grupos criminosos que operam no Brasil.
Saadi não é um novato no Coaf, tendo atuado como conselheiro entre 2010 e 2017. Ele também coordenou o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional no Ministério da Justiça e a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro. Sua trajetória inclui a chefia da superintendência da PF no Rio de Janeiro, onde se envolveu em disputas durante o governo Jair Bolsonaro. Inclusive, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) criticou a indicação de Saadi à Folha, questionando se o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, queria “usar o órgão para agir de lá”. Em contrapartida, a cúpula do Ministério da Justiça elogiou a escolha, destacando o “perfil técnico e a expectativa de fortalecer o combate à lavagem de dinheiro”.
Entre os planos de Saadi para o Coaf está a reestruturação do órgão, que atualmente opera com cerca de 100 servidores cedidos e sem quadro próprio. Ele também visa aprimorar as “comunicações, inteligência e tecnologia” para melhorar o fluxo de informações. Nos últimos anos, as polícias civis têm acionado o Coaf com mais frequência em investigações criminais, aproveitando a decisão do STF que permite o compartilhamento de informações sigilosas com órgãos de investigação sem autorização judicial prévia, embora os limites dessa prerrogativa ainda gerem controvérsia.
Ricardo Saadi, delegado federal desde 2002, possui um currículo marcado pela atuação em crimes financeiros. Antes de sua passagem pelo Coaf, chefiou a delegacia de Repressão a Crimes Financeiros em SP (2007–2010) e atuou como superintendente da Polícia Federal no RS e RJ.


