Equipes trabalham no resgate das vítimas: uma tragédia cujos responsáveis permanecem impunes. (Foto: EBC)


No dia 25 de janeiro de 2019, uma sexta-feira aparentemente comum, a rotina de milhares de famílias em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, foi interrompida por um desastre que se tornou símbolo da negligência na mineração brasileira. Às 12h30, a barragem de rejeitos da Mina Córrego do Feijão, da Vale, se rompeu e liberou uma onda de lama que varreu casas, plantações, rios e, sobretudo, vidas. Foram 272 mortos, além de impactos ambientais e sociais que ainda hoje marcam a cidade e toda a bacia do rio Paraopeba.

Histórias interrompidas

Cruzes instaladas com nomes das 272 vítimas fatais do desastre. (Foto: EBC)

Entre as vítimas estava Everton Lopes Ferreira, de 32 anos, que trabalhava no almoxarifado da mina. Sua esposa, Nayara Porto, lembra que naquele dia preparava um pudim, a sobremesa favorita dele, quando recebeu a notícia do rompimento. O desespero tomou conta: ligações sem resposta, buscas por informações, até descobrir que o armazém onde Everton estava havia sido engolido pela lama. A história de Nayara é apenas uma entre centenas que revelam a dimensão humana da tragédia.

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Justiça lenta

Passados sete anos, ninguém foi responsabilizado criminalmente. Agora, abre-se a possibilidade de que 15 pessoas sejam julgadas. Entre elas, 11 ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale e quatro funcionários da empresa alemã TÜV SÜD, responsável por atestar a segurança da barragem. As audiências começam em fevereiro de 2026 e devem se estender até 2027. Ao final, caberá à Justiça decidir se o caso vai a júri popular.

A Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos (Avabrum) chama o episódio de “tragédia-crime”, reforçando que não se trata de um acidente imprevisível, mas de uma falha anunciada. Relatórios técnicos já apontavam riscos na estrutura da barragem, mas medidas efetivas não foram tomadas.

Um padrão de desastres

Brumadinho não é um caso isolado. Em 2015, o Brasil já havia assistido ao rompimento da barragem de Mariana, também em Minas Gerais, que matou 19 pessoas e contaminou o rio Doce. Em 2018, em Maceió (AL), o solo começou a afundar em vários bairros devido à exploração de sal-gema pela Braskem, obrigando milhares de famílias a deixarem suas casas. Em todos esses episódios, a ausência de punição criminal chama atenção e reforça a sensação de impunidade.

Fiscalização questionada

O mar de rejeitos destruiu tudo o que encontrou no caminho. (Foto: EBC)

Especialistas apontam que a responsabilidade não é apenas das empresas, mas também dos órgãos públicos de fiscalização. Processos de licenciamento e monitoramento muitas vezes se resumem a burocracia e papelada, sem inspeções presenciais que poderiam identificar problemas antes que se tornem desastres.

O outro lado

A Vale afirma que não comenta processos em andamento, mas destaca ações de reparação. Segundo a empresa, até dezembro de 2025, 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral estará cumprido, incluindo indenizações, recuperação ambiental e investimentos em abastecimento hídrico e diversificação econômica da região.

Já a Samarco, responsável pela barragem de Mariana, diz que milhares de pessoas foram indenizadas e que novos distritos foram construídos e entregues às comunidades. A empresa afirma que segue comprometida com a reparação definitiva.

Memória e luta

Neste domingo, familiares e sobreviventes se reúnem em Brumadinho para homenagear as 272 vítimas. O ato acontece no Letreiro da cidade, na rodovia MG-40, e simboliza a luta por justiça e memória. Para eles, mais do que indenizações, é preciso responsabilização criminal e mudanças profundas na forma como a mineração é conduzida no Brasil.