A vice-presidente da AVABRUM, Maria Regina da Silva, durante entrevista ao BC TV


Neste mês de janeiro, a tragédia de Brumadinho completa sete anos, mas a dor e as marcas deixadas pelo rompimento da barragem da Vale ainda permanecem vivas na vida das famílias das 272 vítimas. Em entrevista ao BC TV, nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, Maria Regina da Silva, vice-presidente da Associação dos Familiares das Vítimas de Brumadinho (AVABRUM), afirmou que a luta por justiça e a memória das vítimas continuam presentes no dia a dia.

Maria Regina descreveu os impactos duradouros na saúde física e mental da população local, incluindo crises de ansiedade, pânico e uso intenso de medicamentos. Ela destacou que Brumadinho nunca voltou à normalidade: muitas famílias ainda enfrentam dificuldades no acesso à água e a serviços essenciais, enquanto outras vivem com o trauma constante da perda de parentes, amigos e vizinhos.

A vice-presidente criticou a Vale pelo descumprimento de promessas de reparação, como a construção de hospitais e o atendimento psicológico, e apontou a exclusão dos familiares nos acordos firmados com o governo. Para ela, a chamada “lama invisível” simboliza o trauma contínuo e a indignação por uma tragédia que, segundo Maria Regina, poderia ter sido evitada.

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A seguir, os principais trechos da entrevista:

Camila Srougi: Sete anos depois do rompimento da barragem, quando você olha para essa trajetória, o que mais te marca hoje? Os avanços que foram conquistados ou as ausências que ainda pesam?

Maria Regina da Silva: As ausências pesam muito, a nossa vida nunca mais foi a mesma sem eles. E muitas vezes a gente escuta assim: “Nossa, mas já tem sete anos, vocês não vão parar de falar ou parar de agir ou parar de lutar?”

A gente diz que não, porque o que aconteceu com eles não foi uma tragédia comum, muito menos uma morte comum. O que aconteceu com as 272 pessoas, incluindo a minha filha, foi passível de prevenção; aquilo não precisava acontecer. Aquilo poderia ter tido uma outra história. Mesmo que o rompimento tivesse acontecido, a história poderia ter sido diferente para essas vidas. Então, nós não vamos esquecer e vamos continuar lutando até que a justiça seja feita.

Camila Srougi: Um estudo recente da Universidade Federal de Minas Gerais revela que 70% dos domicílios de Brumadinho ainda enfrentam problemas persistentes de saúde, com o adoecimento físico e mental da população. Quais são as principais doenças que afetam essas pessoas? E, na prática, como é o dia a dia das famílias sete anos depois de tudo isso?

Maria Regina da Silva: Bom, Brumadinho ficou muito diferente depois do crime da Vale. Muitas pessoas costumam dizer, “o rompimento da barragem da Vale de Brumadinho”. Não foi. A barragem não era de Brumadinho; a barragem pertencia à empresa Vale. Então, é o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.

Depois desse acontecido, Brumadinho se transformou. A gente tinha um número de pessoas que todos nós conhecíamos; andava na rua e todo mundo se cumprimentava. De repente, a cidade modificou-se totalmente, com pessoas diferentes de outros lugares que a gente não conhecia e que não faziam parte do cotidiano das famílias de Brumadinho. Isso trouxe muitos transtornos. A maioria das pessoas que morreu era de Brumadinho, conhecida de todos; se não era parente de alguém, era amigo ou conhecido.

A forma como elas foram mortas — moídas junto com o minério — trouxe um abalo muito grande. Muitas pessoas não conseguem se recuperar até hoje. Brumadinho teve um momento em que houve grande número de suicídios. Muitas pessoas ainda não conseguem caminhar normalmente. Há lugares que nem água têm até hoje; em alguns pontos, fornecem água de garrafinha para a população. O transtorno é enorme. As doenças psicológicas aumentaram muito: crises de ansiedade, de pânico e consumo de medicamentos são muito comuns.

Então, a cidade e as pessoas que viviam ali nunca voltaram ao normal. Não tem como.

Germano Oliveira: Então, essas pessoas que ficaram com transtornos mentais, como você mencionou — ansiedade, etc. — a Vale tinha prometido fazer hospitais, atendimento psicológico e médico, mas nada disso aconteceu, ficou só no papel, não é?

Maria Regina da Silva: O município arca hoje com o tratamento dessas pessoas, e o dinheiro que a Vale pagou em multa referente ao rompimento da barragem foi repassado ao Ministério Público do Trabalho. Esse dinheiro volta em forma de projetos. Nós, da AVABRUM, temos um voto no Comitê do Ministério Público do Trabalho e estamos atuando em vários lugares. Em Betim, foram construídas várias UPAs; em São Joaquim de Bicas, foram quatro ou cinco. Em Tauflotoni, no início de dezembro, foi inaugurado um hospital; em Sarzedo, onde moro, há outro hospital sendo construído com esse dinheiro.

A Vale diz que está reparando, mas não vemos claramente onde essa reparação está acontecendo, porque a cidade continua praticamente a mesma. As obras que a empresa afirma estar realizando não são visíveis para nós. Queremos muito ver onde está, de fato, a reparação.

Germano Oliveira: Houve um acordo em 2021, com promessas de reparação, como construção de casas para aqueles que perderam suas propriedades, pousadas e demais bens, além das mortes e desaparecidos. Como é o pânico da população? Há também um termo usado, a “lama invisível”. Como isso funciona?

Maria Regina da Silva: Exatamente. A “lama invisível” simboliza o pânico que vivemos até hoje. A Vale fala que está reparando, mas não conseguimos perceber essa reparação. O acordo foi feito a portas fechadas, sem participação dos familiares; foi um acordo entre a empresa e o governo. O dinheiro que foi repassado ao Ministério Público é referente à multa, que usamos para ações sociais e projetos de reparação.

Essa “lama invisível” é esse pânico diário. O dia 25 de janeiro de 2019 vive dentro da gente todos os dias. Hoje mesmo, estava falando disso em casa. Não nos conformamos apenas com a morte em si, mas com o destino dado àquelas pessoas. A empresa sabia da possibilidade do rompimento e não fez nada para salvá-las. Para a empresa, aquelas pessoas eram números; para nós, eram familiares, amigos, vizinhos, pessoas com compromissos que deveriam ter voltado para nós.

Até hoje, ainda se encontram duas pessoas que não foram localizadas. É muito triste. É isso que não conseguimos aceitar: a forma como a Vale matou aquelas pessoas — moendo-as junto com o minério — é terrível, e não conseguimos desvincular o trauma daquele dia, nem esquecer que tudo poderia ter sido evitado.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:

Estudo da UFMG revela sequelas físicas, mentais e ambientais em Brumadinho

O estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que 70% das famílias relatam adoecimento físico ou mental desde o desastre, com sintomas como ansiedade, depressão, insônia, hipertensão e agravamento de doenças crônicas. Mais da metade dos adultos precisou de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, enquanto o acesso a consultas e tratamentos continua limitado para 76% dos domicílios, refletindo a sobrecarga da rede de saúde local.

A insegurança ambiental também permanece presente. Metais pesados, como arsênio, chumbo, cádmio, mercúrio e manganês, continuam no solo e na água, que 85% dos moradores consideram imprópria para consumo. O medo da contaminação de alimentos e da própria água alimenta a chamada “lama invisível”, sensação de insegurança constante sobre a qualidade de vida e a segurança do território, mesmo anos após o desastre.

Além dos impactos sociais e ambientais, Brumadinho ainda enfrenta perdas econômicas significativas. Sem os acordos de reparação firmados em 2021, a cidade poderia ter perdido entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões do Produto Interno Bruto; com os recursos aplicados, o prejuízo cai para R$ 4,2 bilhões a R$ 5,4 bilhões, mas continua expressivo. Sete anos depois, a população segue em busca de justiça, recuperação e de um futuro em que a dor e o medo não ditem mais o cotidiano.