Produtos para cigarros eletrônicos em uma loja de Caracas, na Venezuela - Reprodução


Os “smart vapes”, ou “smart pods”, são a nova aposta da indústria do cigarro eletrônico para atrair adolescentes.

Esses dispositivos tecnológicos não só permitem a inalação de vapor, mas também oferecem recursos como tocar música, enviar mensagens e até propor jogos.

Alguns chegam a ter a forma de um animal de estimação virtual que “morre” se o usuário parar de fumar, uma tática preocupante para gerar dependência.

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A pneumologista Fernanda Aguiar, do Hospital Mater Dei, em Salvador, expressa sua indignação: “Que gênio do mal cria coisas assim para que as pessoas fiquem mais e mais dependentes? São estratégias do mal com um fim meramente comercial, às custas da dependência de uma droga: a nicotina”. Ela alerta que esses dispositivos são feitos para viciar jovens cada vez mais cedo, expondo-os a sérios riscos de saúde.

Crescimento do Uso e Riscos para a Saúde

Mesmo com a proibição no Brasil desde 2009 pela Anvisa, o consumo de cigarros eletrônicos continua a crescer entre os jovens. Dados da Fiocruz mostram que um em cada cinco adolescentes já usou algum tipo de vape no país. Embora a fiscalização tenha dificultado a compra em grandes sites, o produto ainda é facilmente encontrado.

A Dra. Aguiar destaca a dificuldade em saber o que os jovens estão inalando: “É impossível monitorar quais substâncias estão sendo inaladas. Existem várias misturas que não estão no nosso radar.” Ela enfatiza que o cigarro eletrônico não reduz danos, mas os aumenta: “Se o cigarro eletrônico não for coibido, teremos muitas doenças respiratórias, em muita gente jovem, em pouco tempo.”

Nicotina, Dependência e Doenças Específicas

Os vapes geralmente contêm doses mais altas de nicotina do que os cigarros tradicionais, o que leva a uma dependência mais rápida e intensa. “Consterna a gente ver adolescentes que chegam tão fissurados”, afirma a pneumologista. O uso da nicotina por cérebros ainda imaturos pode causar transtornos de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental.

Além de aumentar o risco de câncer, o uso de cigarros eletrônicos pode agravar doenças como asma e bronquite. Existem também doenças específicas ligadas ao vape, como:

Evali: Uma doença pulmonar grave que pode levar à insuficiência respiratória e necessidade de intubação. É causada por substâncias como acetato de vitamina E, aromatizantes tóxicos e metais pesados.

Pulmão de Pipoca: Uma bronquiolite causada por sabores amanteigados, presentes em vapes.

Enfisema e Fibrose Pulmonar: Lesões pulmonares que podem surgir em pacientes jovens.

A Dra. Aguiar também menciona os impactos cardiovasculares da nicotina, como o aumento da hipertensão e do risco de infarto e AVC. Casos de intoxicação aguda por nicotina, comuns em festas onde adolescentes usam o vape intensamente, podem até levar a convulsões.

Regulamentação em Debate

Um projeto de lei que busca regulamentar a produção e venda de cigarros eletrônicos no Brasil está previsto para ser analisado pelo Senado este ano. A Dra. Aguiar alerta para o “lobby da indústria do tabaco, que se reinventou para a aprovação e liberação desses produtos no país”. Ela reforça o trabalho da Sociedade Brasileira de Pneumologia para “proteger nossos pacientes, principalmente crianças e adolescentes”.

“O cigarro eletrônico vem com uma pegada, um desenho, um jeito, para atrair um público muito jovem, trazendo aí um malefício muito maior do que o relacionado ao cigarro convencional”, conclui a especialista.

Um em cada 9 adolescentes usa cigarro eletrônico no Brasil

Pesquisa da Unifesp aponta tendência de aumento entre jovens

Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgada esta semana apontou que um em cada nove adolescentes brasileiros afirma que usa cigarro eletrônico. O estudo ouviu cerca de 16 mil pessoas de 14 anos ou mais, de todas as regiões do país.

Segundo o levantamento, a quantidade de usuários jovens que usam cigarro eletrônico já é cinco vezes o total daqueles que fumam o cigarro tradicional. A pesquisa utilizou dados de 2022 a 2024 do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad 3). É a primeira vez que cigarros eletrônicos entram no levantamento.

Apesar de o produto ser proibido no Brasil, a coordenadora da pesquisa e professora de psiquiatria da Unifesp, Clarice Madruga, ressalta que é muito fácil comprar o aparelho pela internet, o que amplia o acesso.

Outro problema, aponta a pesquisadora, é o risco à saúde, já que a inalação de substâncias altamente tóxicas, como a nicotina, é muito maior no cigarro eletrônico, se comparado ao cigarro tradicional. Clarice lamenta o retorno do crescimento do uso de cigarro, após o sucesso de políticas antitabagistas, iniciadas na década de 1990, que tinham freado o consumo.

“A gente teve uma história gigantesca de sucesso de políticas que geraram uma queda vertiginosa no tabagismo, mas que um novo desafio quebrou completamente essa trajetória. E a gente hoje tem um índice de consumo, principalmente entre adolescentes, muito superior e que está totalmente invisível”, afirma.

Os participantes ouvidos no estudo receberam a opção de serem encaminhados para tratamento no Hospital São Paulo e no Centro de Atenção Integral em Saúde Mental da Unifesp.