Palowa Mendes*
Caxumba, catapora, pneumonia, coqueluche, sarampo… As chamadas “doenças de criança” eu tive.
Aliás, na minha época — anos 60 e 70 —, era comum. Só a “bailarina” de Chico Buarque não teve. Ela não tinha pereba, cicatrizes de catapora nem marcas de vacina.
As doenças eram comunitárias, altamente contagiosas, e nos infectavam aos montes. A caxumba tinha ritual e estilo: um pano amarrado no rosto, e os meninos ficavam de repouso absoluto “pra não descer” (inflamação nos testículos que podia causar infertilidade). Já o sarampo nos obrigava a ficar sem banho, pois acreditava-se que a friagem faria o sarampo “recolher” (risco de pneumonia, cegueira, encefalite, otite ou até morte). A catapora nos coloria de violeta de permanganato, deixando cicatrizes mesmo nos casos brandos. A poliomielite estava por perto: sempre havia um amigo ou coleguinha com aparelhos ortopédicos pesados, incapaz de jogar futebol ou brincar de pega-pega.
A casa do meu avô recebia parentes ou amigos do interior que vinham tratar tuberculose ou pneumonia nos “ares milagrosos” de Belo Horizonte. Com eles, chegavam notícias de mães e bebês mortos pelo “mal de sete dias” (tétano neonatal). A tosse comprida sufocava, e emplastros de angu ou chás com banha de galinha eram os únicos remédios à mão. Cotidianamente, ouvia-se falar de cães ou gatos com raiva.
O sofrimento das famílias e a exaustão de cuidar das “doenças de criança” encontravam nas rezas, benzeduras e ervas a esperança de uma cura sem sequelas.
Segundo o Instituto Butantã, antes de serem preveníveis e tratáveis, essas doenças tinham taxas de mortalidade alarmantes: quase 100% para raiva, 50% para tuberculose, 25% a 50% para cólera e 30% para varíola. Entre 1971 e 1974, durante a Ditadura Militar, ocorreu o maior surto de meningite do Brasil. O regime tentou escondê-lo, mas, diante da repercussão, foi obrigado a lançar uma campanha de vacinação e criar o Plano Nacional de Imunização (PNI). O objetivo era coordenar ações até então pontuais, reduzir mortalidade, fortalecer a vigilância em saúde e promover prevenção.
Com a criação do SUS e a universalização da saúde, o PNI consolidou-se, incorporou novas tecnologias e ampliou o acesso a vacinas em todo o país, tendo o “Zé Gotinha” como embaixador. Tornou-se referência mundial. Assim, as “doenças de criança” de minha infância foram erradicadas, e endemias como febre amarela e raiva foram controladas. Em 2013, o Brasil atingiu 98,92% de cobertura vacinal.
Porém, entre 2016 e 2022, houve queda drástica nos índices, impulsionada pela desinformação. Olavo de Carvalho, um dos principais nomes antivacina no mundo, disseminou teorias conspiratórias e fake news sobre efeitos colaterais, gerando desconfiança na população. Somou-se a isso o desmantelamento do PNI e do SUS pelo governo federal entre 2018 e 2022, além da campanha negacionista durante a pandemia, que resultou em 700 mil mortes e no retorno de doenças como sarampo e coqueluche.
O atual governo tenta reconstruir o PNI, incluindo novas vacinas no calendário nacional: dengue, vírus sincicial respiratório (causa de bronquiolite em bebês), COVID-19 para crianças e gripe. Porém, a adesão está abaixo do esperado.
O mais surpreendente é que os pais de hoje são filhos da minha geração — a que viu nas vacinas a solução para evitar sofrimento e mortes. Nossos filhos nunca perderam colegas para sarampo ou poliomielite, porque mantivemos o cartão de vacina em dia.
Agora, nós, sobreviventes das “doenças de criança”, precisamos criar um movimento contra o antivacinismo. Precisamos convencer essa geração vacinada — saudável e agora pais — a imunizar seus filhos, nossos netos. Mostrar que vacinar é um ato de amor e que o Zé Gotinha, que um dia foi seu amigo, ainda salva vidas.
Viva a ciência! Viva a vacina!
*Palowa Mendes é Advogada, Ambientalista, Militante Social, e Assessora Parlamentar





