O médico Dr. Marcon Censoni A. Lima, durante entrevista ao BC TV


A fronteira entre o avanço científico e o bem-estar cotidiano encontrou um novo nome: biohacking. Embora o termo possa sugerir algo saído da ficção científica, sua aplicação prática é muito mais fundamentada na fisiologia humana do que se imagina. Longe de ser uma fórmula mágica, o conceito trata de “hackear” ou modular o próprio organismo através de dados, tecnologia e mudanças de hábito para prevenir doenças cardiovasculares e oncológicas.

Em entrevista ao programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, o médico e cirurgião do aparelho digestivo Marcon Censoni A. Lima desmistificou a prática.

Para o especialista, o verdadeiro biohacking é um aliado da medicina clássica, utilizando dispositivos vestíveis (wearables) e biomarcadores para monitorar o sono, a oxigenação e a frequência cardíaca. Em um cenário em que a obesidade eleva em até cinco vezes o risco de diversos tipos de câncer, o ajuste fino de variáveis biológicas torna-se uma ferramenta de sobrevivência.

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A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista conduzida por Germano Oliveira e Camila Srougi:

Camila Srougi – Quando a gente ouve esse termo biohacking, muita gente ainda associa a algo distante ou até exagerado. Primeiro, eu queria que o senhor explicasse o que ele significa de fato. E mais do que isso: onde termina o modismo e começa uma estratégia médica séria de prevenção?

Dr. Marcon Censoni A. Lima – Nós temos no Brasil um problema, inclusive enfrentado pelos Conselhos Regionais de Medicina, que são denominações sem o aval da Associação Médica Brasileira ou do Conselho Federal de Medicina, com a criação de especialidades médicas que não existem oficialmente.

Infelizmente, essa criação de modismos como medicina ortomolecular, medicina integrativa, medicina da longevidade, não existem.

O biohacking nada mais é do que usar ciência para modular a existência, a vida. Essa linha tênue que separa ciência, ética e boa prática é quebrada, por vezes, com promessas fantasiosas e milagrosas, como vemos no Instagram, no WhatsApp e no YouTube.

Por isso, é muito importante o que estamos fazendo aqui: informar. Informando, você municia as pessoas para não serem enganadas, para não caírem na tentação de promessas rápidas e fantasiosas para cura de problemas ou para evitar adoecer.

O biohacking nasceu nos anos 2000, atrelado ao conceito de bem-estar, mas evoluiu com ciência, estudando substâncias que ajudariam, por exemplo, pacientes a passar por tratamentos de quimioterapia.

Ele não substitui a medicina clássica, ele auxilia a medicina clássica.

Podemos dizer que o biohacking tem três grandes pilares: qualidade de vida, prevenção e diminuição da chance de adoecer — tanto de um entupimento de artéria do coração quanto do surgimento de uma doença maligna — e o auxílio ao tratamento quando necessário, como no caso oncológico. “Hacking” quer dizer modular a vida. Ele não substitui, ele auxilia.

Camila Srougi – No seu dia a dia como médico do aparelho digestivo, quais são as pequenas mudanças de hábito que mais se repetem entre pacientes que conseguem evitar doenças graves ao longo do tempo?

Dr. Marcon Censoni A. Lima – Nós repetimos exaustivamente: baixo peso, exercício físico e sono bom.

Mas, com o biohacking, eu consigo, de forma pedagógica e através da tecnologia — como dispositivos no punho, anéis ou sensores — mostrar ao paciente que ele tem problemas no sono, queda da saturação de oxigênio, alteração da frequência cardíaca.

Não é raro que o relógio ou o anel avise picos de frequência cardíaca mesmo em repouso. O biohacking está fazendo o diagnóstico.

A partir do momento em que o paciente percebe essas alterações, ele começa a buscar ajuda. Esse é o papel do médico que faz medicina integral.

A medicina integrativa não existe. A medicina integral existe há décadas. É ver o paciente como um todo — cardiovascular, hepático, renal, pancreático, osteomuscular, geniturinário — e auxiliá-lo a tomar as melhores decisões, fazer exames para diagnóstico precoce e encaminhá-lo ao especialista adequado quando identificamos alguma doença.

O biohacking vem auxiliar uma medicina bem executada, clássica, observando o paciente como um todo e não de forma segmentada, lembrando sempre que a componente comportamental e a saúde mental fazem parte desse sistema.

Germano Oliveira – O senhor mencionou que esse modelo surgiu nos anos 2000, nos Estados Unidos. Quando o senhor teve contato com isso pela primeira vez? E hoje, quem já adota esse modelo no Brasil?

Dr. Marcon Censoni A. Lima – O biohacking já está dentro dos grandes centros e universidades e é motivo de pesquisa. Eu me lembro que, em 2003, quando voltei ao Brasil após três anos na França, trouxe o conceito de que a N-acetilcisteína faria proteção hepática e renal.

Na época, fui questionado por prescrever uma ampola de N-acetilcisteína intravenosa para pacientes que fariam tomografia com contraste iodado. Hoje isso é prática comum, especialmente em idosos, porque diminui o risco de insuficiência renal causada pelo contraste.

Esse é um exemplo de biohacking por meio de substâncias: prevenção, integração de sistemas, diagnóstico precoce e auxílio ao tratamento clássico, sempre evitando o dano.

“Antes de mais nada, não lese”, como dizia Aristóteles.

O biohacking é praticado nos grandes hospitais, mesmo que não receba esse nome. Ele é, na essência, olhar o paciente como um todo, usar tecnologia para identificar alterações precoces e auxiliar os tratamentos clássicos das doenças digestivas, cardíacas e oncológicas. O objetivo é viver mais tempo, mas com saúde.

Germano Oliveira – Esses pequenos ajustes também acabam impactando diretamente a qualidade de vida, certo?

Dr. Marcon Censoni A. Lima – Perfeitamente. Um grande problema da população hoje é o sono. Dormir não é apenas fechar os olhos. Um bom sono envolve respiração e oxigenação adequadas.

Existe uma relação comprovada entre apneia do sono e refluxo. Um piora o outro. O paciente infarta muitas vezes pela manhã porque passou a noite com baixa oxigenação. Quando volta a respirar adequadamente, ocorre a contração arterial, a placa rompe e ele infarta ou sofre um AVC.

Outro ponto importante é a obesidade. Ela é uma das principais causas de câncer no mundo. Sobrepeso aumenta em quatro a cinco vezes o risco de câncer de mama, cólon, reto, próstata e útero. Isso é ciência. No sono profundo ocorre a liberação de hormônios responsáveis pela quebra de gordura. Pacientes que dormem mal, mesmo com dieta restritiva, não emagrecem.

Quando você ajusta sono, alimentação e treino — inclusive ensinando a treinar dentro da frequência cardíaca ideal para perda de peso — os resultados aparecem. Menos esforço, melhor sono, perda de peso e redução do risco de câncer.

Camila Srougi – Hoje vemos academias e centros esportivos trabalhando de forma integrada, com médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e psicólogos. Esse é o futuro da medicina?

Dr. Marcon Censoni A. Lima – Esse é o biohacking praticado fora do consultório. Na verdade, esse foi o passado da medicina.O desafio hoje é garantir acesso e equidade, porque informar e orientar impacta positivamente toda a sociedade.

Quando você otimiza alimentação, sono, diagnóstico de pressão e diabetes — que são as maiores causas de adoecimento hoje — o impacto social é gigantesco.

É colocar o ser humano no centro, de forma multifatorial. O impacto, quando feito com ciência e ética, é sempre positivo.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: