Laira Vieira*
South Park, lançado em 1997, nunca foi só um desenho animado para adultos. É um altar profano erguido à liberdade de expressão: a verdadeira, não a gourmetizada que só vale quando não fere egos frágeis em ternos de grife ou camisetas com frases irônicas. No 1° episódio da 27° temporada, O Sermão da Montanha — que foi ao ar em 23 de julho de 2025 — a série cospe na cara de quem ainda finge não ver que a Casa Branca virou um circo de horrores onde o palhaço principal não tem mais graça, só megalomania.
Donald Trump voltou ao governo, e como de costume, a segunda vez é sempre pior: Então Trey Parker e Matt Stone, os criadores da animação, não precisam mais exagerar, pois a realidade ultrapassa o absurdo. South Park apenas mostra esses absurdos — com muito humor ácido — para uma sociedade hipócrita, na qual o atual presidente ameaça processar humoristas por falarem mal dele, mas diz defender a liberdade de expressão. A mesma liberdade que só vale quando reforça seu próprio culto de personalidade: um culto que não aceita piada, crítica, nuance ou espelho. O limite está claro: não se pode debochar do micropênis do Trump.
O atual presidente estadunidense não precisa ser tentado por Satã — ele é o seu amante tóxico, e seu suposto micropênis não passa despercebido. Lembrando que o ex amante tóxico do demônio era Saddam Hussein. O novo? Um narcisista que promete abrir os arquivos Epstein em campanha, mas esquece disso convenientemente ao assumir o cargo. Talvez por ter sido, por muitos anos, íntimo do próprio Epstein. Amigo de festas, viagens, sorrisos e silêncio. Quem promete transparência enquanto joga as chaves no fundo do pântano que jurou drenar está zombando da inteligência pública com a mesma cara de pau com que grita: “Fake news!”
A porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, declarou que o episódio é uma tentativa “desesperada de chamar atenção”. Segundo ela: “Este programa não é relevante há mais de vinte anos e está se agarrando por um fio com ideias sem inspiração… e nenhum programa de quarta categoria pode atrapalhar o bom momento do presidente Trump.”
Interessante sendo que é a direita que se refere à esquerda como “snowflakes” (flocos de neve, devido à sua grande sensibilidade). Ora, ora… Como as coisas mudam rapidamente! E para os que criticaram a esquerda que aplaudiu o episódio — sendo que é uma série conhecida por não ser nada politicamente correta — South Park nunca se curvou à alguma ideologia. Exceto fazer o público rir de absurdos.
Questionados sobre a fúria da Casa Branca após o episódio, que mostra um Trump simulado por IA em uma nudez patética e messiânica, os criadores disseram, com um sorriso que beira o niilismo: “A gente cresceu vendo presidentes sendo desenhados pelados em banheiros. Estamos só mantendo a tradição americana viva.”
A série de animação não está só fazendo piada. Está apontando o dedo sujo da liberdade seletiva, da moral farisaica, da religião usada como escudo para censura, da justiça vendida por silêncio. Está dizendo que, se tudo é ofensivo, então nada é sagrado. Nem o trono de Trump. Nem a promessa dos arquivos que nunca serão abertos.
Em um desenvolvimento paralelo, Stephen Colbert, empregado da Paramount (mesma companhia que detém os direitos de South Park), fez piada da própria emissora por ceder a acordos com o filhote laranja de déspota.
Colbert chamou de “suborno gordo” o acordo de milhões que a Paramount despejou no colo do presidente, zombou da empresa como quem aponta o rei pelado, e ainda ofereceu seus serviços corporativos por “míseros 50 milhões”, porque, afinal, se é pra vender a alma, que ao menos venha com champanhe e jatinho.
Logo veio o anúncio que seu show — The Late Show with Stephen Colbert (2015) — com altos níveis de audiência, será cancelado em 2026. Foram alegados motivos financeiros. Coincidência? Só pra quem ainda acredita em Coelhinho da Páscoa e neutralidade jornalística.
A liberdade de expressão virou uma grife vendida em sacolas plásticas biodegradáveis por gente que se diz liberal, mas entra em colapso nervoso se alguém faz piada com seu mito. Vivemos a era do “você pode falar o que quiser, mas vai arcar com as consequências de irritar um governante narcisista”.
As palavras, quando não silenciadas, são armas. E já ajudaram a derrubar impérios antes. É por isso que querem calar quem ainda ousa falar com riso nos lábios, veneno e deboche. Porque o riso verdadeiro tem poder, porque às vezes o deboche fere mais que um editorial, porque o sarcasmo não pede desculpas.
Há gente que insiste em querer convencer que a sátira morreu e não têm poder, mas enquanto houver alguém desenhando ou escrevendo, enquanto pensa: “Não posso deixar isso passar em branco!”, ela ainda respira. E não irá, jamais, abaixar a cabeça e pedir desculpas.
*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




