Por Adriana Blak (RJ)
O Governo do Estado de São Paulo está reposicionando sua estratégia de fomento ao empreendedorismo ao colocar a capacitação gerencial e a mentoria de negócios como portas de entrada para suas políticas públicas de qualificação. Por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), o estado lançou o programa Qualifica SP – Empreenda, iniciativa que oferece 2 mil vagas anuais gratuitas voltadas especificamente para mitigar as principais dores de crescimento de micro e pequenos empresários.
Executado em parceria com a Fundação Dom Cabral, considerada uma das escolas de negócios mais prestigiadas do país, o curso remoto tem carga horária de 30 horas divididas em três módulos práticos. Os alunos recebem acompanhamento por meio de mentorias coletivas e individuais com foco em gestão financeira, identificação de oportunidades de mercado e estruturação de plano de negócios.
A formação busca sanar os gargalos estruturais mais comuns do setor, como a burocracia, a falta de controle de caixa e a dificuldade de divulgação de produtos.
As vagas são distribuídas em quatro ciclos ao longo do ano, sendo que o ciclo inicial de 500 vagas recebe inscrições até o dia 28 de maio pelo site oficial do programa, com aulas previstas para começarem nas primeiras semanas de junho para candidatos formais ou informais maiores de 18 anos.
A centralidade nas ferramentas de gestão é complementada por uma forte ofensiva de letramento digital e inovação voltada aos trabalhadores e empresários paulistas.
A subsecretária de Empreendedorismo e Produtividade da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), Amiris de Paula, em entrevista à BC TV, do Brasil Confidencial, destaca que a transformação digital já redesenha a rotina econômica e que a inteligência artificial deixou de ser uma tendência de mercado para ocupar um espaço vital nas estratégias das empresas.
A subsecretária, que é economista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo, especialista em gestão pública pelo Insper, mestranda em administração pública pela Fundação Getulio Vargas e em formulação de políticas públicas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), aponta que cerca de 40% das empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial em suas operações diárias, patamar que inclui desde grandes corporações até microempresas de bairro.
É nesse contexto de transição tecnológica que o estado disponibiliza o programa “IA para Todos”, um braço do Qualifica SP desenhado em parceria com a StartSe que abriu 1 milhão de vagas em um curso totalmente online e gratuito. O modelo de ensino é composto por quatro módulos de curta duração, com aulas de até 30 minutos, permitindo que o aluno concilie o aprendizado com o cotidiano profissional.
A exigência por competências digitais básicas reflete uma mudança profunda nos processos de contratação e na produtividade interna das empresas.
Amiris de Paula pondera que a inteligência artificial passou a ser quase um pré-requisito em processos seletivos contemporâneos. Essa percepção é ratificada por Fernanda de Araújo, sócia da StartSe e head do AI Academy, que afirma que em conversas com empregadores e profissionais de recursos humanos fica nítido que o conhecimento dessas ferramentas, considerado um diferencial competitivo em 2025, tornou-se uma exigência para vagas de atendimento e vendas.
O curso oferecido busca desmistificar a tecnologia desde o primeiro módulo, ensinando o estudante a integrar os sistemas automatizados à rotina para otimizar processos repetitivos e utilizar diferentes plataformas geradoras de conteúdo.
A oportunidade atrai um público diverso, composto por jovens em busca do primeiro emprego, trabalhadores autônomos e profissionais experientes.
O professor universitário Júlio Tadao Murakawa, de 45 anos, relata que buscou a capacitação remota para compreender os mecanismos internos da tecnologia e avançar além das consultas básicas cotidianas, aproveitando a comodidade das aulas remotas transmitidas pelo computador.
O impacto econômico do domínio tecnológico é visível nos dados de sobrevivência empresarial. Uma sondagem do Sebrae indica que 44% dos micro e pequenos empreendedores no país já recorrem a soluções de inteligência artificial para otimizar suas operações e reduzir custos.
Contudo, o estudo expõe uma contradição: embora 30% das micro e pequenas empresas declarem não ter dificuldades operacionais com o uso de tecnologia, o verdadeiro entrave está em como aplicar essas ferramentas de forma estratégica no negócio.
A diretora de Qualificação Profissional da SDE, Thayane Carvalho, argumenta que o micro e pequeno empresário tem no curso gratuito a chance de aprender comandos rápidos e práticos para alavancar vendas, otimizar tempo e obter maior precisão na gestão comercial.
Modelos gratuitos de inteligência artificial permitem a criação de peças publicitárias, edição de imagens e até o desenvolvimento de agentes virtuais de voz para responder a clientes em tempo real. Fernanda de Araújo adverte, contudo, que a eficiência dessas plataformas depende de comandos assertivos emitidos pelo usuário, o que exige conhecimento técnico e amplia o leque de habilidades do profissional.
Para dar sustentação financeira aos programas de treinamento e garantir a sobrevivência dos pequenos negócios, o governo paulista articula o acesso facilitado ao microcrédito produtivo por meio do Banco do Povo Paulista (BPP).
A instituição financeira ligada à SDE funciona como o terceiro pilar de apoio econômico estadual, oferecendo linhas de crédito que variam de R$ 200 a R$ 21 mil para investimentos em capital de giro ou modernização de infraestrutura.
O financiamento atende tanto trabalhadores informais e artesãos quanto microempreendedores individuais (MEI), empresários individuais (EI), microempresas (ME) e produtores rurais com CNPJ. O parcelamento varia de 24 a 36 meses, com taxas de juros reduzidas e carência que oscila entre 60 e 90 dias.
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico defende que a fusão entre qualificação gerencial em parceria com a Fundação Dom Cabral, inovação tecnológica via programas de inteligência artificial e suporte financeiro imediato do Banco do Povo constrói um ecossistema sólido para elevar a competitividade das empresas paulistas e estimular a geração contínua de emprego e renda no estado.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Amiris, considerando sua bagagem acadêmica em dados e economia pelo Massachusetts Institute of Technology e pela Fundação Getulio Vargas, como você enxerga o impacto real da inteligência artificial no mercado de trabalho atual no estado de São Paulo?
Amiris de Paula – A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência. Só no último ano, pelo menos três empresas brasileiras começaram a adotar IA por minuto, segundo relatórios aos quais temos acesso. Hoje, cerca de 40% das empresas no Brasil já utilizam inteligência artificial de alguma forma.
E isso não é mais uma realidade apenas das grandes corporações. As pequenas empresas também passaram a incorporar essa tecnologia no dia a dia. Um relatório do Sebrae em parceria com a Fundação Getulio Vargas mostra que o pequeno empreendedor já entendeu o potencial da IA para o próprio negócio. Hoje, sete em cada dez micro e pequenas empresas já utilizam IA, por exemplo, em ações de divulgação e marketing — justamente áreas fundamentais para impulsionar vendas.
Então, a IA deixa de ser hype e passa a ser uma necessidade prática, tanto para micro e pequenos negócios quanto para grandes empresas. E isso vale também para os trabalhadores, que precisam se qualificar cada vez mais, e para os empreendedores que estão à frente dos seus negócios.
Adriana Blak – Antigamente a inteligência artificial parecia um tema distante, mais restrito aos profissionais da área de tecnologia. Hoje, porém, ela praticamente se tornou uma habilidade básica, cada vez mais exigida em processos seletivos e entrevistas de emprego. Isso já é uma realidade, não é?
Amiris de Paula – Com certeza. Inclusive, há algum tempo tivemos aqui no canal de vocês uma entrevista sobre o Trampolim, justamente abordando essa preocupação sobre como a inteligência artificial vem impactando o mercado de trabalho — tanto do ponto de vista do trabalhador quanto das empresas.
Na ocasião, falamos sobre a plataforma Trampolim, que utiliza IA até mesmo para preparar profissionais para entrevistas de emprego. Então, a inteligência artificial já faz parte das discussões sobre qualificação profissional e desenvolvimento de carreira.
Hoje, trabalhamos essa pauta em diferentes frentes: desde programas de capacitação até iniciativas voltadas para apoiar empresas e trabalhadores na adaptação a essa nova realidade. O objetivo é justamente inserir a IA de forma prática no dia a dia, ajudando pessoas a se qualificarem melhor e empresas a se tornarem mais competitivas.
Adriana Blak – Dados do SEBRAE mostram que 44% dos empreendedores brasileiros já utilizam inteligência artificial para otimizar seus negócios. Diante desse cenário, como surgiu a parceria da Secretaria de Desenvolvimento Econômico com a Estátice para a criação do curso ‘IA para Todos’?
Amiris de Paula – A preocupação com os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho — tanto para empresas quanto para trabalhadores — é hoje uma pauta central dentro da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, liderada pelo secretário Jorge Lima e pela secretária-executiva Juliana.
Ao longo desse período, temos refletido sobre como criar políticas públicas realmente efetivas para apoiar essa transformação, seja na qualificação dos trabalhadores, seja no fortalecimento das empresas.
Foi nesse contexto que surgiu a parceria com a Estátice para a criação do curso ‘IA para Todos’. A iniciativa disponibiliza mais de um milhão de vagas, justamente porque entendemos que a inteligência artificial já faz parte da realidade dos microempreendedores, pequenos negócios e grandes empresas.
Hoje, inclusive, temos dados mostrando que 95% das empresas brasileiras que adotaram IA registraram crescimento de receita. Então, o ‘IA para Todos’ nasce com esse objetivo: capacitar pessoas para esse novo mercado e, ao mesmo tempo, apoiar empresas com profissionais mais qualificados para um ambiente cada vez mais competitivo.
A inteligência artificial deixou de ser apenas um diferencial desejável e passou a se tornar quase um pré-requisito em muitos processos de contratação. Por isso, o curso oferece noções básicas de IA aplicadas de forma prática e acessível.
E como o estado de São Paulo tem uma população muito grande e diversa, estamos disponibilizando vagas para que pessoas de todos os municípios possam se inscrever e se capacitar.
Adriana Blak – O curso é totalmente gratuito. O cidadão não paga absolutamente nada para se inscrever e participar das aulas, correto?
Amiris de Paula – Exatamente. Enquanto governo do Estado, estamos pensando em políticas públicas gratuitas e de qualidade para o cidadão. E o curso ‘IA para Todos’ foi estruturado justamente com esse objetivo.
Ele é dividido em quatro módulos, totalmente online e 100% gratuito. Além disso, pode ser feito no ritmo e no horário que a pessoa preferir. As aulas são curtas, com cerca de 30 minutos de duração, pensadas justamente para se encaixarem na rotina de quem está buscando qualificação profissional.
Sabemos que o mercado de trabalho hoje é muito dinâmico e que as pessoas conciliam diversas tarefas ao longo do dia. Por isso, desenvolvemos uma formação acessível, prática e flexível, para que qualquer pessoa interessada em aprender sobre inteligência artificial consiga estudar de forma simples e aplicada ao dia a dia.
E estruturar um curso gratuito para mais de um milhão de pessoas realmente é um desafio expressivo, mas estamos otimistas porque os dados mostram uma demanda crescente por qualificação em IA. Houve uma curadoria muito cuidadosa nessa parceria, justamente para oferecer um curso de qualidade e ampliar o acesso da população à capacitação em inteligência artificial.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:




