A coronel Glauce Anselmo Cavalli. (Foto: Reprodução)


Pela primeira vez em quase dois séculos de história, a maior instituição de segurança pública do Brasil será liderada por uma mulher.

O governador Tarcísio de Freitas anunciou na quarta-feira a nomeação da coronel Glauce Anselmo Cavalli como comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo. O movimento histórico, oficializado no Diário Oficial do Estado nesta quinta-feira, quebra um teto de vidro de longa data em uma instituição militar tradicionalmente dominada por homens.

A nomeação ocorre em um momento crucial para o aparato de segurança do estado, que busca equilibrar estratégias de combate ao crime com demandas crescentes por modernização e representatividade.

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“A coronel Glauce construiu uma trajetória sólida na Polícia Militar, com formação de excelência, liderança reconhecida e ampla experiência em funções operacionais, estratégicas e de gestão”, afirmou de Freitas em nota. “Sua nomeação representa um marco histórico… e é também um avanço importante para a ampliação da presença feminina nos cargos de liderança do Estado.”

Cavalli, oficial de carreira com doutorado em ciências policiais, ocupava anteriormente a Diretoria de Logística da corporação. Seu currículo reflete uma combinação de rigor acadêmico e comando operacional, incluindo a chefia do CPA/M-2, responsável por uma das regiões mais populosas da capital paulista. Ela também é graduada em Direito e Educação Física.

A mudança no comando marca o fim da gestão do coronel José Augusto Coutinho, que liderava a força desde maio de 2025. Durante seu período à frente da tropa, de Freitas destacou que o estado registrou uma “redução histórica” nos índices criminais, embora o governo não tenha detalhado as métricas específicas por trás dessa afirmação no anúncio.

A Polícia Militar de São Paulo conta com um efetivo de aproximadamente 80 mil oficiais, o que a torna uma potência paramilitar na América do Sul. Embora as mulheres sirvam nas fileiras da corporação há décadas, elas ainda representam uma minoria, especialmente em unidades de elite e de choque.

Acompanhando Cavalli no novo escalão de liderança, o coronel Mário Kitsuwa assumirá o posto de subcomandante. Kitsuwa, que é psicólogo de formação, traz um histórico em assistência social e gestão de pessoal — um sinal potencial de que o departamento pode estar buscando priorizar o bem-estar dos oficiais e a cultura interna, paralelamente ao policiamento ostensivo.

A transição ocorre em meio a um debate nacional mais amplo sobre a conduta policial e a natureza militarizada das forças de segurança estaduais. Ao colocar uma mulher altamente qualificada no comando, de Freitas — um aliado conservador do ex-presidente Jair Bolsonaro — pode estar tentando suavizar a imagem de uma força frequentemente criticada por grupos de direitos humanos pelo uso de força letal, ao mesmo tempo em que promove a queda nas estatísticas de criminalidade.

Para Cavalli, o desafio será imediato: gerir a política interna de uma burocracia massiva e tradicionalista, mantendo a tendência de queda na violência urbana que se tornou um pilar da plataforma da atual administração.