Embora suspensa por 90 dias, uma tarifa de 20% está prevista sobre as exportações europeias para os EUA. Assim como a China tem procurado alternativas para escoar sua produção, a União Europeia tem mirado o Sul Global em sua busca por novos parceiros comerciais.
Durante uma visita de três dias ao Vietnã nesta semana, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez, insistiu para que a Europa explorasse novos mercados e disse que seu governo estava “firmemente comprometido”com a abertura de seu país e da Europa para um maior comércio com o Sudeste Asiático.
Não será tarefa fácil achar compradores que ocupem o lugar deixado pelos americanos, pondera Varg Folkman, analista de políticas do think tank European Policy Centre (EPC).
Folkman destacou uma “grande resistência” entre os europeus a novos arranjos comerciais – com destaque à relutância da França em abrir seu setor agrícola para o Brasil e a Argentina no acordo comercial da UE com o Mercosul – que levou 25 anos para ser negociado e ainda não foi ratificado.
“Os acordos comerciais são controversos”, disse. “Será potencialmente muito difícil implementar novos acordos, mesmo com a urgência que vemos hoje.”
Embora a UE e a China possam tentar impulsionar o comércio bilateral, economistas e formuladores de políticas vêem a rivalidade comercial entre ambos como mais um elemento da guerra comercial em curso.
Europeus temem desova chinesa
Muito mais baratos que os produzidos na Europa, produtos chineses podem afetar empresas locais
As tarifas dos EUA sobre a China “podem muito bem acabar gerando um desvio de produtos de exportação chineses para a União Europeia, o que colocará pressões adicionais sobre os produtores europeus e provavelmente aumentará os pedidos de uma resposta protecionista de Bruxelas”, afirmou, em comunicado, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), think tank com sede em Washington.
Há muito tempo a UE vem expressando sua preocupação com os grandes subsídios estatais concedidos aos produtores chineses, permitindo que eles “despejem” produtos artificialmente baratos nos mercados europeus. Mão de obra barata e enormes ganhos de escala também são fatores que pressionaram os concorrentes europeus, levando a falências e cortes significativos de empregos.
O caso dos veículos elétricos é o mais recente. Graças a subsídios do governo, isenções fiscais e empréstimos baratos, marcas chinesas como BYD, Nio e Xpeng chegaram com tudo do mercado da UE, forçando seus concorrentes locais a baixar os preços. Como consequência, o setor automotivo europeu atravessa uma grande reestruturação, com a ameaça de redução e fechamento de fábricas e a perda de dezenas de milhares de empregos, especialmente na Alemanha.
Enquanto Washington impôs uma tarifa de 100% sobre os veículos elétricos fabricados na China, o que na prática impede a venda de carros chineses aos EUA, a tarifa da UE difere de acordo com a montadora chinesa. A alíquota máxima é de 35,3% – no caso da BYD, 17%.
Jörg Wuttke, ex-diretor da gigante industrial alemã Basf na China, alertou sobre um “tsunami” de produtos chineses em direção à Europa, o que ele espera que não desencadeie novas barreiras comerciais por parte da UE.
Ele recomenda melhor “comunicação e confiança” entre Bruxelas e Pequim para evitar novas práticas de dumping – quando produtos são vendidos a um preço artificialmente baixo, às vezes até menor do que o custo de produção, para eliminar a concorrência e dominar um mercado consumidor.
Em 2023, a UE anunciou planos para uma força-tarefa de vigilância de importações para monitorar aumentos repentinos nas importações que poderiam ameaçar as indústrias europeias. O sistema de alerta precoce foi criado para ajudar o bloco a se livrar da China em meio a tensões geopolíticas e suspeitas de dumping.
Entretanto, há preocupações de que outros exportadores asiáticos, e também os EUA, descarreguem o excesso de mercadorias na UE a preços baixos. A força-tarefa poderia ajudar Bruxelas a responder muito mais rapidamente às ameaças, com investigações antidumping, tarifas e restrições temporárias às importações.
Bruxelas, no entanto, enfrentaria críticas por espelhar as políticas protecionistas de Trump. Isso representaria um distanciamento do apoio de longa data da UE ao livre comércio, um enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e um risco maior de escalada global das tensões comerciais.
A BYD está investindo na Europa para aumentar sua presença no continente
A empresa já vende carros no continente, mas enfrenta desafios como a concorrência e a fraca demanda por veículos totalmente elétricos.

Fábricas
A BYD está construindo duas fábricas na Europa, uma na Hungria e outra na Turquia.
A fábrica na Hungria deve começar a funcionar no final de 2025.
A BYD também está expandindo sua rede de fornecedores e parceiros estratégicos na Europa.
Modelos
O BYD Atto 2 começou a ser vendido na Europa em fevereiro de 2025.
O BYD Yuan Pro estreou na Europa com mais autonomia e porta-malas maior.
A BYD enfrenta desafios como a concorrência e a fraca demanda por veículos totalmente elétricos.
A BYD não tem praticado os mesmos preços no Reino Unido e na Europa.
A BYD espera que novas fábricas na Hungria e na Turquia ajudem a compensar o aumento das taxas de importação sobre veículos que exporta de seu mercado doméstico.


