O tema foi abordado no painel Coragem e Liberdade: Histórias que Transformam, durante o São Paulo Innovation Week, nesta quarta, 13. Maior festival global de tecnologia e inovação, o evento é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
Muratov é jornalista e um dos fundadores do Novaya Gazeta, um jornal independente criado na Rússia em resposta à opressão de mídias no país. Seu trabalho no jornal lhe rendeu, em 2021, o Prêmio Nobel da Paz em 2021, dando destaque à sua luta por uma imprensa mais livre. O jornalista atuava como editor-chefe do Novaya Gazeta até que o veículo suspendeu suas atividades online e impressas após o aumento da censura russa com o início da guerra na Ucrânia.
No palco do SPIW, Muratov abriu seu painel relembrando os sete jornalistas do Novaya que morreram desde o início da operação do jornal. Ele afirmou que chegou a considerar o fechamento do jornal mas que o projeto era uma forma de continuar lutando pela liberdade de imprensa na Rússia.
“Eu considerei que o jornal havia se tornado mortalmente perigoso para eles (os repórteres) e propus fechar nossa publicação. Mas os jornalistas se recusaram a obedecer. Eles me responderam: ‘É nossa escolha pessoal conduzir investigações, fazer reportagens. É nossa função separar a verdade da mentira’. Nosso acionista, Mikhail Gorbachev, os apoiou. Ele disse: ‘Sem liberdade de expressão, a ditadura e o fascismo podem voltar'”, aponta Muratov.
Ainda com o Novaya Gazeta, o jornalista esteve presente em diversas coberturas que considera histórica para o veículo, como o caso Panamá Papers, em 2016, o desaparecimento do voo da Malaysia Airlines MH370, em 2014, e o caso do submarino Kursk, em 2000. “Quando recebi a medalha do Nobel – claro, essa medalha pertence ao jornal, não a mim -, eu disse que queria que os jornalistas morressem de velhice. Como vocês podem ver, isso nem sempre dá certo”, diz.
Verdades e algoritmos
Muratov também alertou sobre o risco das fake news e das imagens geradas por inteligência artificial para o jornalismo e a forma como esses conteúdos ocupam o espaço dos fatos e chegam às pessoas pelas redes sociais. De acordo com o Nobel da Paz, vivemos em um tempo em que a nossa atenção é um bem valioso e os algoritmos lutam por ela com publicações atraentes, mesmo que elas sejam mentira.
Com isso, surgem o que ele chama de “mentiras atraentes”, que se tornam mais fáceis e acessíveis ao público nas redes sociais. Isso ocorre tanto pelo funcionamento dos algoritmos, que tendem a priorizar conteúdos virais, quanto pelo engajamento que essas publicações geram. Um exemplo é a foto gerada por IA do papa Francisco com um grande casaco branco Balenciaga, marca espanhola de luxo. A foto foi criada em um programa de inteligência artificial e é falsa, mas quando viralizou na internet, muitas pessoas acreditaram ser real.
“A mentira é atraente, enquanto a verdade parece horrível. Então, será que ela é necessária? A mentira custa pouco, mas a verdade custa a vida. As pessoas estão dispostas hoje a pagar pela verdade ou isso é algo que só nós, jornalistas, precisamos? Existe demanda pela verdade? As pessoas precisam da verdade ou lhes bastam suas próprias convicções pessoais? As pessoas estão dispostas a gastar seu tempo para descobrir a verdade?”, pergunta Muratov.
Autoritarismos e governos
Segundo o Nobel da Paz, governos populistas estão utilizando a democracia como uma forma de chegar ao poder e utilizá-los para seus próprios fins – uma forma de perpetuar, por diversos meios, uma espécie de regime de poder pessoal. “Os ditadores utilizam os mecanismos da democracia para chegar ao poder, mas nunca o entregarão voluntariamente”, afirma.

