
O relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado nesta quinta-feira (18), escancara uma realidade alarmante: o ciclo hidrológico global está em colapso.
Em 2024, apenas um terço das bacias hidrográficas do planeta apresentou condições normais. Os outros dois terços enfrentaram desequilíbrio severo, com excesso ou escassez de água pelo sexto ano consecutivo.
Ano mais quente da história 2024 desde o início dos registros há 175 anos. A temperatura média global atingiu 1,55°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando pela primeira vez o limite simbólico de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris. Esse marco eleva significativamente o risco de eventos climáticos extremos.
Secas e enchentes simultâneas
A crise climática intensificou secas prolongadas na Bacia Amazônica, no norte da América do Sul e no sul da África, enquanto África Central, Europa e Ásia enfrentaram chuvas torrenciais e inundações devastadoras.
Na Europa, um terço da rede fluvial ultrapassou níveis críticos de inundação, com 335 mortes e mais de 400 mil pessoas afetadas.
Na Ásia e Pacífico, ciclones como o Tufão Yagi e enchentes no Afeganistão causaram mais de 1.000 mortes e crises humanitárias em diversos países.
Brasil: extremos simultâneos
O Brasil viveu dois desastres hídricos de grande escala em 2024:
Enchentes no Rio Grande do Sul deixaram mais de 180 mortos e afetaram 2,4 milhões de pessoas.
A Amazônia enfrentou a pior seca já registrada, com chuvas até 40% abaixo da média e o Rio Negro em nível mínimo histórico.
A seca atingiu 59% do território nacional, incluindo o Pantanal e o semiárido. Os prejuízos no setor agrícola gaúcho ultrapassaram R$ 8,5 bilhões.
Derretimento de geleiras e elevação do mar
Todas as regiões do mundo reportaram perda de gelo em 2024, totalizando 450 gigatoneladas, o que representa 1,2 mm de elevação no nível do mar. No Ártico, o aquecimento foi três vezes superior à média global, com tendência de intensificação.
Impactos sociais e econômicos
A irregularidade do ciclo da água está agravando a fome, migração forçada, conflitos e perdas econômicas bilionárias. Estima-se que 3,6 bilhões de pessoas tenham acesso inadequado à água por pelo menos um mês por ano, número que pode subir para 5 bilhões até 2050.
Recomendações urgentes
A OMM alerta que os governos devem:
Reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa.
Investir em infraestrutura hídrica e urbanismo resiliente.
Reformar práticas agrícolas para melhor uso da água.
Ampliar o monitoramento climático, especialmente na América do Sul, Ásia e África.
Brasil: monitoramento
O Cemaden é citado como referência em monitoramento de desastres, mas o relatório recomenda expansão da cobertura e integração dos serviços climáticos.
Declaração da OMM
“Água é vida. Sustenta nossas sociedades, impulsiona nossas economias e ancora nossos ecossistemas. E, no entanto, os recursos hídricos do mundo estão sob pressão crescente”, afirma Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.


