BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
A menos de dois meses do processo de desincompatibilização dos cargos para quem deseja disputar as eleições deste ano, começa a haver uma debandada dos principais ministros e assessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo menos 20 ministros deverão deixar os postos para se habilitarem junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a terem seus nomes nas urnas em outubro.
A saída do ministro Fernando Haddad (Fazenda), que deve deixar o governo ainda em fevereiro, é o que está dando o que falar dentro do Palácio do Planalto e nas hostes do PT. Ele diz que gostaria de coordenar a campanha do líder petista à reeleição, mas o presidente tem outros planos para ele. Lula quer que o ministro seja candidato a governador de São Paulo ou ao Senado também pelo estado.

A própria ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, lançou nesta quinta-feira, 29, o ministro candidato em São Paulo em outubro, tanto para o governo, para enfrentar Tarcísio de Freitas, que vai disputar a reeleição, ou para o Senado. Ela fez rasgados elogios a Haddad, dizendo que ele fez um ótimo trabalho à frente da Fazenda e que isso o credenciava para o processo eleitoral em São Paulo.
O ministro aproveitou para dar declarações irônicas. Disse que esses galanteios o satisfizeram muito, já que até recentemente Gleisi o criticava, sobretudo quando ela estava no cargo de presidente do PT, ainda em meados do ano passado. Ele explicou, porém, que preferiria ser um dos coordenadores da campanha presidencial, dispensando a possibilidade de disputar o governo ou o Senado por São Paulo. Mais uma saia justa entre os dois.
A vez de Simone Tebet

Se Haddad vacila, a ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), está doida para ser candidata a governadora ou ao Senado por São Paulo. Mas, nesse caso, ela teria que deixar o governo central no dia 1º de abril, mudar o domicílio de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para a capital paulista, e pedir as bênçãos de Lula ao seu plano. Tebet teria também que deixar o MDB e se filiar ao PT, já que o MDB está flertando com o apoio à candidatura de Tarcísio (Republicanos) ainda no primeiro turno.
Fora isso, Tebet é realmente um excelente nome por ser mais carismática do que o próprio Haddad. O ministro da Fazenda melhorou muito sua comunicação com o público, mas continua menos simpático do que a ministra do Planejamento. Além disso, em 2022, ela foi fundamental para Lula vencer Bolsonaro no segundo turno, por uma pequena margem. Tebet conseguiu transferir para o petista os 2 milhões de votos que obteve no primeiro turno de 2022, quando foi candidata a presidente pelo MDB, e graças a isso o lulismo venceu o bolsonarismo naquele ano.
Lula ficou tão satisfeito com o desempenho de Tebet que a fez ministra.
A influência de Alckmin

O atual vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), é outro cotado a disputar a eleição contra Tarcísio ou pleitear uma das duas vagas ao Senado, mas ele não deseja isso. Já disse inúmeras vezes que prefere ficar onde está (ou seja, como vice de Lula). Afinal, ele já foi governador de São Paulo quatro vezes — a primeira foi como vice de Mário Covas, que lhe deixou o governo ao falecer de câncer, em 2001 — e ele não se sente entusiasmado a ter que voltar ao Palácio dos Bandeirantes. Lula deve bater esse martelo dentro de dois meses.
Se dependesse de Alckmin, o candidato dele ao governo paulista poderia ser Márcio França (PSB), mas este já mostrou não ter grande capacidade eleitoral. Ex-governador que herdou o posto por ter sido vice de Alckmin, França perdeu feio a eleição de 2018 ao governo de São Paulo para o empresário João Doria (PSDB). Depois sobreviveu politicamente por sua amizade pessoal com Alckmin e acabou recebendo o Ministério do Empreendedorismo, que não tem muita expressão, o que o faz passar apagado politicamente e sem peso para disputar cargos de maior relevância em São Paulo.


