O ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araqchi, chega a Moscou para se encontrar com o presidente russo Vladimir Putin. (Reprodução: Redes Sociais)


O Oriente Médio vive um novo e perigoso capítulo de tensão após os recentes bombardeios dos Estados Unidos contra instalações nucleares iranianas. Em meio a esse cenário, o presidente Donald Trump reacendeu a polêmica ao sugerir, de forma explícita, uma mudança de regime no Irã, utilizando seu conhecido slogan adaptado: “Make Iran Great Again” (MIGA). A declaração de Trump, postada em sua rede social Truth Social, adiciona combustível a uma crise que já mobiliza a comunidade internacional e levanta questionamentos sobre a legalidade das ações americanas.

Bombardeios geram incerteza sobre programa nuclear iraniano

Os ataques lançados por bombardeiros e submarinos dos EUA atingiram duramente três instalações nucleares no Irã, causando “danos sérios”, segundo altos funcionários do governo americano. No entanto, a principal incógnita que paira é o paradeiro do estoque de urânio enriquecido iraniano, que estaria em um nível “quase pronto para fabricação de uma bomba”. O próprio governo dos EUA reconhece que “ainda é cedo para dizer se Teerã ainda tem capacidade de construir uma arma nuclear”.

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Apesar da escalada militar, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que “não há operações militares planejadas neste momento” e que é impossível saber se o Irã conseguiu mover parte do material nuclear antes dos ataques. A declaração de Trump, “se o atual regime iraniano não consegue ‘fazer o Irã grande de novo’, por que não mudar o regime? MIGA!!!”, publicada no Truth Social, gerou apreensão e foi interpretada como uma clara sugestão de mudança de regime, intensificando os temores de uma guerra.

Conselho de Segurança da ONU faz reunião de emergência e condena ataques

Diante da gravidade da situação, o Conselho de Segurança das Nações Unidas realizou uma reunião emergencial em Nova York, a pedido do Irã. O secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu o cenário como um “ponto de inflexão perigoso” e fez um apelo urgente por um cessar-fogo imediato e o retorno a negociações “sérias e sustentadas”, alertando que a região “não suporta mais um novo ciclo de destruição”.

O embaixador do Irã na ONU, Amir Saeid Iravani, acusou os Estados Unidos de “agressão” e advertiu que, se o Conselho não condenar a ação, ficará com a “mancha da cumplicidade”. Iravani afirmou que o Irã tem o “direito legítimo de se defender, conforme o direito internacional”, e que a resposta será “proporcional — com tempo e escala definidos pelas Forças Armadas iranianas”.

Em resposta, a embaixadora interina dos EUA, Dorothy Shea, defendeu os bombardeios como uma ação em “legítima defesa, amparada pela Carta da ONU”, visando eliminar uma “ameaça crescente à segurança global” e proteger “tanto seu aliado Israel quanto seus próprios cidadãos”. Shea reforçou a posição de Trump, afirmando que “qualquer ataque iraniano — direto ou indireto — será respondido com retaliação devastadora”.

A Rússia, por sua vez, foi uma das vozes mais críticas. O embaixador Vassily Nebenzia condenou veementemente o que chamou de “ações irresponsáveis, perigosas e provocativas” dos Estados Unidos, comparando a situação ao caso do Iraque em 2003, quando os EUA usaram “supostas provas de armas de destruição em massa como justificativa para a guerra”. Para Nebenzia, os EUA estão, mais uma vez, “tentando impor a sua versão dos fatos ao mundo, sem aprender com os erros do passado”. Paralelamente, o chanceler iraniano Abbas Araqchi viajou a Moscou para discutir o cenário com o presidente Vladimir Putin, com o objetivo de “alinhar posições diante das ameaças comuns” enfrentadas por Irã e Rússia.

Democratas questionam constitucionalidade dos bombardeios

A decisão de Trump de autorizar os ataques sem permissão prévia do Congresso gerou forte reação entre parlamentares, especialmente entre os democratas, que consideram a ofensiva uma “declaração de guerra” conduzida de forma “ilegal”. A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez classificou a ação como uma “violação grave da Constituição” e “um motivo absoluto e claro para impeachment”, em uma publicação nas redes sociais.

Pela Constituição dos Estados Unidos, somente o Congresso tem o poder de declarar guerra. Apesar de Trump não ter feito uma declaração formal, a Constituição também concede ao presidente autoridade para usar força militar em situações de defesa do país ou proteção de interesses nacionais. A oposição também criticou o fato de que apenas líderes republicanos das duas casas do Congresso foram avisados com antecedência.

Consequências do conflito já afetam mercados e rotas globais

Os reflexos do conflito já se fazem sentir nos mercados internacionais. Os preços do petróleo dispararam na manhã desta segunda-feira, com o Brent e o WTI registrando alta de mais de 4%, atingindo o nível mais alto desde janeiro.

Em resposta direta aos ataques, o Parlamento do Irã aprovou uma medida que prevê o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo. A decisão final, no entanto, será tomada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do país.

Além do impacto econômico, o Departamento de Estado dos EUA emitiu um alerta global para cidadãos americanos, citando o risco de protestos e ações contra interesses dos EUA no exterior. Em comunicado publicado na rede X, o governo americano informou que o conflito entre Irã e Israel já provocou “interrupções em rotas aéreas e fechamentos temporários de espaço aéreo em várias partes do Oriente Médio”, orientando cidadãos dos EUA a “redobrarem a cautela ao viajar para o exterior”. O presidente americano tem uma reunião agendada para a tarde desta segunda-feira (23) com o Conselho de Segurança para discutir o andamento da situação no Oriente Médio.