O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter uma noção clara dos objetivos do massivo destacamento militar americano no Caribe, após uma semana de intensas consultas focadas na Venezuela. A campanha militar dos EUA, que oficialmente se apresenta como uma operação antidrogas, já dura dois meses e meio e resultou no ataque a cerca de 20 lanchas, com um saldo de pelo menos 80 mortes no Caribe e no Pacífico oriental.
“Fase Dois”
Apesar de representantes da Administração, como o secretário de Estado, Marco Rubio, insistirem no foco no combate ao narcotráfico, o próprio Trump mencionou publicamente uma “fase dois” da operação que poderia incluir alvos terrestres.
Este anúncio alimentou a especulação de que o objetivo real vai além das drogas, visando a remoção do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
Washington acusa o regime de Maduro de usar o narcotráfico como base de sua sobrevivência e não o reconhece como líder legítimo. Essa percepção é corroborada por setores como o militar, com Daniel Elkins, CEO da Associação Americana de Operações Especiais, afirmando que a operação trata “cem por cento” de uma mudança de regime. Essa escalada coloca Trump e Maduro em um duelo pessoal onde a credibilidade do presidente americano e a continuidade do poder chavista estão em jogo, conforme observou o antigo enviado especial de Trump, Elliott Abrams.
Desdobramento
A retórica belicista é acompanhada de um impressionante poder naval. Os EUA posicionaram na região o porta-aviões nuclear Gerald Ford , o maior e mais moderno do mundo. O grupo de combate do porta-aviões, desdobrado em águas internacionais do Caribe perto do limite territorial venezuelano, inclui 15 mil soldados, caças F-35 (os mais avançados), helicópteros e mísseis de longo alcance Tomahawk. Este destacamento representa 20% da força naval americana mobilizada globalmente.
A chegada do Gerald Ford foi interpretada como um sinal de que a ação militar pode ser iminente, dado o custo diário de sua operação, que é de até US$ 8,4 milhões (cerca de R$ 45,3 milhões). O Pentágono reforçou essa percepção ao anunciar a operação Lança do Sul (Southern Spear) para “eliminar os narcoterroristas”.
Em resposta, Maduro mobilizou 200 mil militares e milicianos, e assinou um decreto que lhe confere poderes de segurança excepcionais. Caracas acusa Washington de tentar “forçar uma guerra” em uma “zona de paz” e prepara uma estratégia de guerrilha urbana para dificultar qualquer domínio estrangeiro em caso de ataque.
Opinião Pública e Implicações Regionais
A decisão de Trump, que se apresenta como um pacificador e evita “guerras estúpidas”, enfrenta a rejeição da população americana. Uma pesquisa Reuters/Ipsos de 14 de novembro revelou que:
- 51% dos americanos rejeita os ataques letais contra as lanchas de narcotraficantes.
- 35% condena o uso da força militar na Venezuela sem permissão do governo local.
- Apenas 21% apoia um golpe contra Maduro.
Além do Caribe, o Pentágono reforçou bases em Porto Rico e deslocou forças terrestres para o Panamá, país que os EUA invadiram em 1989. Tais movimentos, juntamente com voos de bombardeiros B-52 e B-1 perto da costa venezuelana, indicam uma estratégia de pressão de longo prazo, definida pela general reformada Laura Richardson como um giro na política externa americana para se concentrar nas Américas, revivendo a doutrina Monroe.
A escalada também gerou atrito com a Colômbia. O presidente Gustavo Petro, que foi classificado por Trump como “narcotraficante”, descreveu os ataques contra as lanchas como “execuções extrajudiciais”, crítica também endossada pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. Trump também estendeu suas advertências, citando que os EUA têm problemas “com o México” e “com a Colômbia” em relação ao fluxo de drogas.


