Donald Trump: contra os organismos internacionais, fechando os EUA para o mundo. (Foto: Governo EUA)


Os Estados Unidos anunciaram nesta terça-feira (22/07) que voltarão a deixar a Unesco, a agência das Nações Unidas para educação, ciência e cultura.

É a segunda vez em menos de uma década que isso acontece – nos dois casos, por decisão do presidente Donald Trump.

Em 2018, durante o primeiro mandato do republicano, os EUA se retiraram da entidade alegando que o órgão tinha um viés anti-Israel. Em 2023, sob a gestão do democrata e rival Joe Biden, o país voltou à Unesco.

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“O presidente Trump decidiu retirar os Estados Unidos da Unesco – que apoia causas culturais e sociais woke e divisivas, que estão em descompasso total com as políticas de senso comum pelas quais os americanos votaram em novembro”, declarou uma porta-voz da Casa Branca ao tabloide New York Post.

O termo woke usado pela porta-voz é uma expressão pejorativa usada para se referir a políticas progressistas, sensíveis às injustiças e desigualdades sociais, especialmente à discriminação de grupos historicamente desfavorecidos, como negros, indígenas e pessoas LGBTQ+.

EUA respondem por 8% do orçamento da Unesco

A saída da Unesco foi confirmada por outra porta-voz da diplomacia americana, que acusou a entidade de encampar uma agenda “globalista e ideológica” contrária à agenda nacionalista trumpista.

Diretora-geral da Unesco, Audrey Auzolay lamentou o anúncio, mas afirmou que ele já era aguardado e que a entidade se preparou para tal cenário.

A decisão americana, que será formalizada em dezembro de 2026, deve atingir duramente os cofres da agência – Washington responde por 8% de seu orçamento.

EUA já deixaram a Unesco três vezes

Essa será a terceira vez que os EUA deixam a Unesco. Além da saída em 2017, sob Trump, o país já havia abandonado a entidade em 1984, durante o governo de Ronald Reagan.

À época, Washington acusou a entidade de ser mal administrada, corrupta e instrumentalizada pela União Soviética.

Mesmo após a União Soviética ruir, nos anos 1990, os EUA só voltaram a integrar a entidade em 2003, sob George W. Bush.

Em 2011, EUA e Israel suspenderam repasses à Unesco após posicionamento favorável do órgão ao reconhecimento dos Territórios Palestinos como Estado.

A Unesco é conhecida internacionalmente principalmente pela lista de patrimônios mundiais históricos e naturais.

Sob Trump, EUA abandonam compromissos internacionais

Desde que Trump reassumiu a Casa Branca, os EUA já abandonaram a Organização Mundial da Saúde – órgão da ONU que teve papel essencial na coordenação de medidas de controle da pandemia de covid-19 – e o Acordo de Paris, compromisso internacional para o combate das mudanças climáticas.

Washington também suspendeu seus repasses à UNRWA, a agência da ONU de apoio aos refugiados palestinos. O governo americano agora financia apenas a Gaza Humanitarian Foundation (GHF), entidade polêmica que atua na Faixa de Gaza sob o aval de Israel.

Além disso, Trump também se desvencilhou do compromisso assumido por seu antecessor, Joe Biden, com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) para a imposição de um imposto mínimo global a grandes empresas.

Por decisão de Trump, os EUA também não fazem mais parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU e acabaram com a Usaid, a agência de cooperação internacional do governo americano que financiava diversas ações de saúde e educação em países pobres.

O republicano também tem ameaçado abandonar a já politicamente inapta Organização Mundial do Comércio (OMC) e impôs sanções contra membros do Tribunal Penal Internacional por investigarem o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, por suas ações em Gaza.

EUA acusam Unesco de ser ‘tendenciosa contra Israel’

A decisão de os Estados Unidos saírem da Unesco nesta terça-feira (22) foi motivada, segundo informações, porque Israel e promoveria causas controversas contra Israel.

“Lamento profundamente a decisão do presidente Donald Trump de retirar novamente os Estados Unidos da América da Unesco”, disse sua diretora-geral, Audrey Azoulay.

“Embora lamentável, o anúncio era esperado e a Unesco se preparou para ele”, disse, observando que “está mais bem protegida financeiramente” do que outras agências da ONU, e que a contribuição americana de US$ 75 milhões (R$ 417 milhões) anuais representa apenas 8% do orçamento total da organização.

A decisão de Washington, que entrará em vigor no final de 2026, segue um pedido de Trump feito em fevereiro para rever os compromissos dos Estados Unidos com vários órgãos da ONU.

A porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Tammy Bruce, descreveu a Unesco como uma entidade que “promove causas sociais e culturais que dividem” e está excessivamente focada nos objetivos de sustentabilidade da ONU, os quais chamou de “agenda ideológica globalista”.

Bruce também questionou o reconhecimento da Palestina como Estado. “A decisão da Unesco de admitir o ‘Estado da Palestina’ como membro pleno é altamente problemática, contrária à política dos Estados Unidos, e contribuiu para a proliferação da retórica contra Israel dentro da organização”, disse a porta-voz.

Após o anúncio da decisão de Washington, Israel celebrou a saída dos EUA da Unesco.

Para Azoulay, “esses argumentos contradizem a realidade dos esforços liderados pela Unesco, especialmente na educação sobre o Holocausto e na luta contra o antissemitismo”.

Três retiradas em 40 anos

Esta é a terceira vez que Washington deixa a Unesco em 40 anos.

Em outubro de 2017, durante seu primeiro mandato, Donald Trump anunciou a retirada de seu país, denunciando os “persistentes tendências anti-israelenses” da instituição. Essa retirada, seguida pela de Israel, entrou em vigor em dezembro de 2018.

A Unesco contrariou Israel principalmente em julho de 2017, ao inscrever o centro histórico de Hebron na lista do Patrimônio Mundial em Perigo e ao caracterizar Hebron, na Cisjordânia ocupada, como uma cidade islâmica, enquanto os judeus, dos quais centenas agora vivem entrincheirados entre 200.000 palestinos, reivindicam uma presença de 4.000 anos.

Diretora-geral da Unesco desde novembro de 2017, Audrey Azoulay obteve do governo Biden – que sucedeu Trump em 2021 – o retorno dos Estados Unidos, que também se comprometeram a reembolsar integralmente, em parcelas, os pagamentos em atraso desde 2011, no valor de US$ 619 milhões (R$3,44 bilhões).

Após a admissão da Palestina à Unesco naquele ano, Washington suspendeu todo o financiamento previsto em uma lei americana que proíbe investimentos em uma organização cujo Estado-membro seja a Palestina.

Em 1984, Ronald Reagan também retirou a participação dos Estados Unidos, alegando uma suposta inutilidade e os excessos orçamentários da agência. Washington retornou à organização em outubro de 2003, durante a presidência de George W. Bush (2001-2009).

Redução da carga financeira

Caso deixem a organização que abriga a Unesco, os Estados Unidos permanecerão como membros do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, que vota pela designação de locais protegidos, disse uma fonte próxima ao assunto dentro da Unesco.

Acostumada às reviravoltas de Washington, a Unesco tem se esforçado nos últimos anos para reduzir sua dependência do financiamento americano, principalmente aumentando a proporção de contribuições voluntárias, que dobrou sob o comando de Audrey Azoulay.

“Esta decisão, no entanto, afetará nossas atividades nos próximos anos ou nos forçará a buscar outras fontes de financiamento”, acrescentou a fonte próxima ao assunto.

A Unesco é conhecida principalmente por seus programas educacionais e suas listas de patrimônios mundiais de bens culturais e sítios naturais extraordinários, e às vezes ameaçados.

Nos últimos anos, a organização também abordou a questão do uso ético da inteligência artificial.