O Papa Leão não deixou de responder ao presidente Trump seus ataques. (Fotos: Reproduções)


O presidente Donald Trump voltou a atacar o chefe da Igreja Católica. Em mensagem publicada na rede social Truth Social, o presidente americano pediu que “alguém informe o papa de que o regime iraniano matou”, segundo ele, “42 mil manifestantes inocentes em dois meses”.

Em meio à escalada de tensão entre religião e política internacional, Leão XIV segue em um giro de onze dias por quatro países africanos. Nesta quarta-feira, o pontífice desembarcou em Camarões, segunda etapa da viagem após a Argélia.

Escalada verbal

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Trump também criticou declarações do pontífice à imprensa italiana. Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, afirmou que o papa “não deveria falar sobre a guerra, porque não tem ideia do que está acontecendo no Irã”. Além disso, atacou a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, por defender Leão XIV.

O confronto ganhou um novo capítulo na segunda-feira, quando Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial na qual aparece como Jesus Cristo.

A escalada verbal começou no domingo, quando classificou Leão XIV como “fraco” e “um desastre em política externa”.

O papa respondeu com firmeza, afirmando que não sente medo do governo americano e que continuará a promover a paz.

Reação do Vaticano

A resposta de Leão XIV marca um novo estágio em uma relação que se deteriorou nos últimos meses. O pontífice vinha tentando se manter afastado de confrontos pessoais, mas avaliou que o ataque frontal exigia uma manifestação clara.

Em discurso ao corpo diplomático em 9 de janeiro, afirmou que “a guerra voltou a estar na moda” e defendeu o reforço do multilateralismo. Em 22 de janeiro, autoridades do Pentágono se reuniram com o núncio apostólico nos EUA, o cardeal Christophe Pierre.

O Vaticano negou relatos de ameaças. O fato de o encontro ter ocorrido no Departamento de Defesa, e não no Departamento de Estado, foi considerado incomum e levantou suspeitas de intimidação.

Críticas ao Irã

Nas últimas semanas, Leão XIV intensificou suas críticas à guerra no Irã. Em 31 de março, citou pela primeira vez publicamente o nome de Trump e pediu uma saída negociada. Durante a Páscoa, condenou a violência, pediu desarmamento e incentivou ações concretas em favor da paz.

Na Vigília pela Paz, em 11 de abril, denunciou os “delírios de onipotência” e pediu engajamento político em processos de paz.

O gatilho de Trump

Um fator relevante pode ter sido a entrevista de três cardeais americanos ao programa 60 Minutes, da CBS. Eles defenderam as posições do pontífice e criticaram a Casa Branca. O cardeal Robert McElroy descartou que o conflito no Irã possa ser considerado “guerra justa”. Blase Cupich afirmou que vídeos divulgados pelo governo “desumanizam as vítimas”. Joseph Tobin classificou o Serviço de Imigração e Alfândegas como “organização sem lei”.

“Não consegue controlar”

Para o padre Giulio Albanese, chefe da Comunicação do Vicariato de Roma, Trump ataca o papa porque “não consegue controlá-lo”. Segundo ele, Leão XIV representa “o único verdadeiro estadista que resta no cenário internacional”, capaz de falar com clareza e defender a paz sem transformar tudo em palco eleitoral.

Diplomacia e viagem

A diplomacia do Vaticano raramente responde a ataques diretos. Durante voo para a Argélia, primeira etapa da viagem africana, o papa afirmou que não tem “nenhuma intenção de entrar em debate” com Trump.
Leão XIV tem formação em matemática e filosofia, pertence à tradição agostiniana e adotou como lema papal In Illo uno unum (“no único Cristo somos um”).

Reações na Itália

As declarações de Trump repercutiram na Itália. Giorgia Meloni afirmou que os ataques ao papa “são inaceitáveis”. Trump respondeu chamando a postura da premiê de “inaceitável” e disse estar “chocado”. O episódio levou o Partido Democrático, de centro-esquerda, a manifestar solidariedade inédita à líder de extrema direita.

Giro africano

As críticas de Trump acabaram ofuscando a viagem apostólica de 13 a 23 de abril. Após Argélia e Camarões, o papa visitará Angola e Guiné Equatorial. Deve se pronunciar em quatro idiomas e abordar temas como paz, meio ambiente, migração, família, juventude e colonialismo. Não estão previstas medidas especiais de segurança.