O Brasil urbano, com suas contradições, pressões e fronteiras invisíveis, ganha um retrato literário. O autor é Marcos Clementino, um paulistano nascido na periferia de São Paulo, no bairro do Campo Limpo, que foi à luta, estudou, se tornou jornalista, atuou como correspondente de imprensa na Europa e Austrália, trabalhou no mercado financeiro e hoje é empresário.
Ele participou nesta sexta-feira (28) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, para falar sobre o lançamento do livro “O Tubarão da Berrini”, um romance ambientado na Avenida Luiz Carlos Berrini — um dos principais corredores corporativos do mundo, onde estão instaladas empresas como Microsoft Brasil, Accenture, Oracle Brasil, Vivo, Globo, Ernst & Young, KPMG, SAP e Nestlé.
Segundo o autor, a obra mergulha nas camadas sociais ocultas de um território onde circulam carros de luxo e executivos com roupas de grife, em prédios envidraçados que abrigam grandes negócios e decisões que impactam a economia e a política nacionais. A narrativa contrapõe esse cenário à famosa e polêmica Avenida Faria Lima, outro símbolo da elite paulistana.
“Trabalhei muito na Avenida Berrini e ainda atuo na região. Sou nascido na periferia de São Paulo, no Campo Limpo. A gente costuma escrever sobre o que viveu. Na Faria Lima tem baleia; na Berrini tem tubarão.”
Ele destacou que a Berrini, apesar de “menos midiática”, é carregada de simbolismos sociais e econômicos:
“É um polo menos pop, mas com bancos, grandes negócios, o maior escritório de advocacia da América Latina, hotéis internacionais e a maior rede de televisão do Brasil.”
Ambição, desigualdade e a “linha tênue” da cidade
Segundo Clementino, “o romance mistura intriga, drama e realismo urbano”. Questionado sobre a ambição desmedida das grandes capitais, respondeu:
“O capitalismo é bom, mas acentua a disparidade social. Na Berrini passam o menino de aplicativo e o milionário. Da recepção no elevador ao pacote entregue, tudo isso gera frustração. E, dependendo do caminho que a pessoa toma, entra no trem da ilusão”, comentou.
O protagonista do seu livro é o jovem Marcolino, ou Marcolino Pé de Amora, nome que simboliza uma geração vulnerável.
“Ele tinha boas notas, era talentoso, mas sofria bullying. Ao mudar de escola, é acolhido por uma gangue. Vê no crime uma forma de se proteger e proteger a família”, disse.
Clementino explicou que o título mistura psicologia junguiana ao cenário urbano:
“Uso o arquétipo do tubarão, que vive nas profundezas. Assim é o personagem: cheio de competências, mas puxado para o submundo”, afirmou.
A trama culmina em um assalto na própria Avenida Berrini, evento que desencadeia o drama do protagonista.
Fé, trauma e crítica social
Um dos momentos mais polêmicos da obra é quando Marcolino furta uma hóstia durante a missa. O autor reconheceu o desconforto:
“Sou católico. Sabia que essa cena geraria repulsa. Mas ele não faz por desrespeito, e sim por desespero emocional. Cria um santuário em casa e, depois de baleado, recupera os movimentos num momento de fé”, declarou.
Segundo Clementino, a história pretende provocar reflexão, não justificar atos criminosos:
“Ninguém nasce ladrão. As circunstâncias moldam. Não é passar a mão na cabeça, é entender por que se chega a esse ponto”, disse.
Crítica ao Estado e à polarização
O autor também comentou a abordagem política presente na obra:
“Governantes de esquerda ou direita lutam mais pelo partido do que pelo povo. A violência não vai acabar, mas pode diminuir muito. Se resolver fosse ‘cancelar CPF’, o Brasil já não teria problema”, afirmou.
Para ele, o livro convida ao diálogo e à empatia:
“Estou cansado dessa briga entre esquerda e direita. Cada um só se vê pelo próprio trauma. Meu convite é: faça um intercâmbio social. Só assim conseguimos discutir sem brigar.”
Da Berrini a Paris: memórias que moldam o escritor
Durante a entrevista, Clementino falou também de sua trajetória profissional como jornalista. Atuou no jornalismo na Austrália e depois na França como correspondente internacional de uma emissora de TV brasileira. Testemunhou momentos históricos, como os atentados de Paris em 13 de novembro de 2015.
“Aquilo me marcou muito. É uma cicatriz psicológica. Cheguei minutos depois do primeiro ataque no Stade de France. Paris ficou em velório”, disse.
Naquela noite, explosões ocorreram nas imediações do estádio, em Paris, enquanto homens armados atacavam bares e restaurantes. O episódio mais violento foi no Bataclan, durante show da banda Eagles of Death Metal. Três terroristas invadiram o espaço, dispararam contra o público e mantiveram reféns por horas, até serem mortos pela polícia.
No total, 130 pessoas foram assassinadas e mais de 350 ficaram feridas, 99 em estado crítico. O Estado Islâmico reivindicou a autoria, classificando os ataques como resposta à política externa francesa. O governo decretou estado de emergência e reforçou a segurança em todo o país.
Clementino também cobriu a guerra civil na Síria e viveu momentos tensos na Faixa de Gaza, onde quase ficou retido entre fronteiras. Essas experiências o levaram a deixar o jornalismo:
“Eu amava a profissão, mas a distância do meu filho e o trauma pesaram. Fechei um ciclo”, explicou.
“Sou nascido na periferia (da cidade de São Paulo) e hoje circulo na high society. (Como jornalista) De manhã entrevistava um refugiado; à noite estava numa COP com líderes mundiais. Essa bagagem me permite traduzir linguagens sem caricatura”, declarou.
O espírito do romance
Sobre “O Tubarão da Berrini”, Clementino resume:
“Evite julgar. Tente se colocar no lugar do outro. O rico deve visitar a comunidade; o pobre entender que nem todo rico chegou lá por coisa errada. Esse intercâmbio é fundamental. Só assim corrigimos, aos poucos, esse Brasilzão”, disse.
O livro será lançado em 6 de dezembro, às 15h, no Café Santo Grão, na Avenida Dr. Chucri Zaidan, 1240, região da Berrini, em São Paulo.
SERVIÇO

O Tubarão da Berrini
Autor: Marcos Clementino
Editora: Viseu
Páginas: 212
Sobre a autor: Marcos Clementino é jornalista, escritor, empreendedor e palestrante, nascido em Campo Limpo (SP). Formado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Social, construiu carreira em veículos como TV Cultura e RedeTV!, onde atuou como correspondente internacional e participou de grandes coberturas, incluindo os atentados de Paris em 2015. Autor de livros como Olho Vivo, Faro Fino! e O Tubarão da Berrini.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:


