Originalmente parte de uma vila, uma pequena travessa dos Jardins deve ser vendida em breve pela Prefeitura de São Paulo. A viela teve a alienação aprovada pelos vereadores em 1ª votação no dia 24, a pedido da gestão Ricardo Nunes (MDB), que estima garantir ao menos R$ 16,6 milhões com a transferência da área, de 647 m².
O projeto de lei abrange a Travessa Engenheiro Antônio de Souza Barros Júnior, cujo acesso é pela Alameda Lorena e está entre a Avenida Nove de Julho e a Rua Pamplona, no distrito Jardim Paulista. Recentemente, as casas da parte interna da vila foram demolidas, e os restaurantes que ficavam na entrada foram fechados — o último a encerrar atividades foi o Duas Terezas, há cerca de um ano.
A reporta apurou que o projeto para viabilizar a alienação foi enviado à Câmara Municipal após empresas ligadas à Helbor entrarem com um processo administrativo na Prefeitura.
A incorporadora tem aquele entorno como uma das “joias” do seu “land bank” (banco de terrenos), onde pretende construir um condomínio de altíssimo padrão. A viela fica em um “eixo de verticalização”, tipo de zoneamento que permite prédios altos.
Procurada, a Helbor não se manifestou. Já a Prefeitura destacou que a travessa não se conecta a outras vias e que, portanto, sua desincorporação não causará impactos no trânsito. “Toda a elaboração do projeto de lei contou com avaliação jurídica e pareceres técnicos”, justificou.
Além disso, a gestão Nunes apontou que a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento concluiu “pela inviabilidade de uso isolado da área”. Também respondeu que a Procuradoria Geral do Município (PGM) “considerou viável a alienação direta por se tratar de lotes dependentes da via”.
Embora continue via pública por enquanto, a travessa estava com o acesso fechado por portão quando o Estadão esteve no local, na quarta-feira, 25. À reportagem, a gestão Nunes disse que a Subprefeitura Pinheiros fará vistoria no endereço.
O futuro empreendimento na Lorena com a Pamplona é destacado como um dos principais do “land bank” da Helbor. Em reunião interna sobre os resultados do primeiro trimestre de 2025, em maio, foi apresentada estimativa de Valor Geral de Vendas (VGV) quase bilionário, de R$ 994 milhões. O vídeo da reunião está disponível na página de investidores da Helbor.
Na apresentação, também foi destacado que parte dos apartamentos maiores terá uma “vista eterna”. Isso porque estarão voltados à área tombada dos Jardins, onde são permitidos apenas imóveis baixos.
Ao todo, o empreendimento deve abranger 5,3 mil m² de terrenos. É chamado de “altíssimo” padrão pela Helbor, que tem outros projetos com perfil semelhante na mesma região.
O processo administrativo pela alienação da travessa foi aberto na Prefeitura em 2023. Há três meses, em março, a Comissão do Patrimônio Imobiliário do Município (CMPT) se posicionou favoravelmente, com a indicação de que a área deveria ser vendida por R$ 16,6 milhões — com valor a ser atualizado no ato da lavratura da escritura.
Ao todo, o empreendimento deve abranger 5,3 mil m² de terrenos. É chamado de “altíssimo” padrão pela Helbor, que tem outros projetos com perfil semelhante na mesma região.
O processo administrativo pela alienação da travessa foi aberto na Prefeitura em 2023. Há três meses, em março, a Comissão do Patrimônio Imobiliário do Município (CMPT) se posicionou favoravelmente, com a indicação de que a área deveria ser vendida por R$ 16,6 milhões — com valor a ser atualizado no ato da lavratura da escritura.
Na reunião, a Procuradoria Geral do Município apontou que, para a alienação direta da travessa, basta que o adquirente seja dono de todos os lotes acessados pela viela. Nesse caso, não seria necessária uma licitação.
Antes disso, em 2022, outra deliberação sobre a travessa foi apreciada na mesma comissão. À época, contudo, o pedido havia sido aberto pelos herdeiros da vila, que defendiam o desenquadramento da viela como logradouro público (sem necessidade de alienação). A demanda foi negada. A reportagem solicitou mais informações sobre o empreendimento à Helbor ao longo da última semana, a qual não se manifestou.
Como é o projeto que libera a venda? O que dizem os vereadores?
O projeto de lei que autoriza a alienação foi aprovado com 34 votos favoráveis e quatro contrários, dentre os 55 vereadores. Ainda não há data para uma segunda votação, mas ficará para depois do atual recesso parlamentar.
No texto, é dito que a alienação não poderá ocorrer por preço inferior ao da avaliação a ser feita por órgão competente da Prefeitura, “devendo a importância apurada ser integralmente paga no ato da respectiva escritura”. “Ficarão a cargo do comprador todas as providências e despesas correspondentes à lavratura da escritura e seu registro”, completa.
A Prefeitura salienta, na justificativa, o “relevante interesse público de que se reveste a iniciativa”. Um dos argumentos é de que a travessa abrange apenas o acesso a outros lotes privados e, portanto, não seria viável o seu “aproveitamento de forma isolada”.
O vereador Nabil Bonduki (PT), que votou favorável ao PL, apontou que apresentará sugestões de aprimoramentos do texto para a segunda deliberação. Para ele, como a alienação é praticamente “fato consumado”, deve-se buscar formas de garantir que o possível único interessado pague preço compatível com uma região tão valorizada.
Também favorável, o vereador Paulo Frange (MDB) disse que o projeto envolve demanda evidente há anos diante das dinâmicas de transformação da cidade. Também defende que o valor de venda seja alto: “estamos vendendo a joia da coroa”. “Já não tem mais vocação para vila naquele local. E, hoje, todos os lindeiros pertencem a alguém que está querendo construir.”
Contrária, a vereadora Keit Lima (PSOL) destacou que o projeto permite transformação praticamente irreversível, voltada a “interesses privados” e sem apresentação de justificativas orçamentárias e urbanísticas. “Sem qualquer processo participativo”, acrescentou. “Todo espaço público precisa ser debatido com a comunidade, especialmente se há possibilidade de mudar a sua natureza jurídica”, completou.
Como era a vila que existia nesta travessa?
A entrada da vila abrange dois casarios cujos últimos usos foram por restaurantes e outros estabelecimentos gastronômicos. Entre os dois, a travessa levava até a parte interior, onde estava um conjunto de oito sobrados geminados.
O conjunto de lotes da vila são datados da década de 1930. Já a travessa permaneceu sem nome por décadas, até os anos 1980, quando foi batizada após mobilização da Sociedade Amigos do Jardim Paulista, como homenagem ao engenheiro Antônio de Souza Barros Júnior.
A travessa tem cerca de 85 metros de extensão, com entrada pela Alameda Lorena, sem saída por outra via. Na quarta-feira, 25, estava com parte do acesso fechado por meio de um portão.
Na entrada pela Lorena, os dois imóveis estão fechados e esvaziados. Em junho do ano passado, o restaurante Duas Terezas, que ocupava um dos endereços, comunicou o encerramento das atividades no local.
“As mudanças no entorno do nosso restaurante (construções e demolições, entre outras coisinhas) nos impactaram e teremos de mudar de casa de novo”, apontou o Duas Terezas à época.
O outro imóvel da entrada também tem histórico de uso como estabelecimento gastronômico. Já a parte interna da vila está com as construções total ou parcialmente demolidas.


