Por Camila Srougi e Germano Oliveira
A desigualdade de gênero no mercado de trabalho brasileiro começa já na entrada das mulheres em setores historicamente menos valorizados e se amplia ao longo da carreira, sobretudo nos cargos de liderança.
A avaliação é de Renata Seldin, ex-executiva com mais de duas décadas de atuação em grandes corporações e hoje doutora em Gestão da Inovação, mestre em Engenharia de Produção e especialista em consultoria de gestão.
Nos últimos anos, Seldin reorientou sua trajetória profissional. Tornou-se palestrante em temas como igualdade de gênero no ambiente corporativo, planejamento familiar e superação de perdas.
Paralelamente, passou a escrever e a atuar como influenciadora digital, reunindo mais de 30 mil seguidores com reflexões sobre autoestima, luto, resiliência e narrativas femininas.
A experiência resultou em três livros: As perdas no caminho: Em busca de uma família, em que relata os desafios pessoais na tentativa de engravidar; Pequenas crônicas sobre grandes coisas do dia a dia (2024); e O vazio (2024).
Nesta sexta-feira (27), Seldin participou do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, para discutir carreira, igualdade de gênero, desafios profissionais e família.
Ela destacou que, embora pesquisas indiquem a diversidade como fator de inovação e desempenho financeiro, muitas empresas ainda tratam o tema como “estratégia de marketing”, sem promover mudanças estruturais capazes de reduzir o “gap salarial” e ampliar a presença feminina nas cúpulas corporativas.
Segundo Seldin, enfrentar a desigualdade exige mais do que relatórios obrigatórios. “É necessário investir em cultura organizacional, transparência e planejamento de carreira aliado à autonomia financeira das mulheres, garantindo que escolhas como a maternidade não sejam determinadas pela falta de informação ou independência econômica”, afirmou.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – O mercado de trabalho brasileiro passa por uma transformação profunda, impulsionada pela tecnologia e por novas dinâmicas sociais que exigem revisão das estruturas hierárquicas. No entanto, a disparidade de gênero em cargos de liderança e a diferença salarial entre homens e mulheres ainda são desafios estruturais que impactam a produtividade e o desenvolvimento econômico do país. Até que ponto a resistência à equidade de gênero nas altas cúpulas corporativas não é apenas uma questão cultural, mas também uma falha na percepção de que diversidade é um ativo financeiro e estratégico para a sobrevivência das empresas?
Renata Seldin – De fato, as pesquisas mostram que a diversidade só tem a contribuir. Ela amplia perspectivas, aumenta a possibilidade de inovação e traz melhores resultados financeiros. No entanto, quando falamos de desigualdade de gênero no mercado de trabalho, estamos lidando com questões estruturais muito antigas e enraizadas.
A desigualdade começa no momento em que homens e mulheres entram no mercado de trabalho. Nós, mulheres, já ingressamos em cargos e setores historicamente menos valorizados, como áreas de cuidado, recursos humanos e saúde, enquanto os homens predominam nas engenharias e na tecnologia. Ainda que hoje já existam mulheres em posições de liderança nessas áreas, o gap começa na entrada e vai se ampliando ao longo da carreira por motivos sistêmicos.
Apesar de sabermos que diversidade é importante, muitas empresas ainda tratam o tema como um número bonito para constar em relatórios de governança corporativa. Faltam ações estruturadas que trabalhem cultura organizacional e a história da empresa para transformar o processo desde a base, que é o ingresso no mercado de trabalho.
Camila Srougi – Muitas organizações implementam políticas de inclusão que parecem mais voltadas ao marketing do que a uma mudança real de cultura. Como você avalia essa transição do discurso para a prática, especialmente quando falamos em quebrar o chamado “teto de vidro”, que impede mulheres qualificadas de alcançarem diretorias executivas?
Renata Seldin – Em 2023, o governo sancionou uma lei que obriga empresas com mais de 100 funcionários a publicarem relatórios, de forma anonimizada, sobre divergências salariais entre homens e mulheres e também em relação à raça. Fiz pesquisas e esses relatórios são difíceis de encontrar nas páginas institucionais das empresas. Quando são publicados, aparecem de forma agregada, sem detalhamento sobre o que será feito para reduzir o gap.
Então, fica muito no discurso e pouco na ação. A percepção de que muitas vezes é marketing está correta. Mesmo com multa para quem não entrega as informações ao governo, o que vemos são empresas cumprindo a formalidade de publicar o relatório, mas sem apresentar ações claras para reduzir desigualdades salariais e de oportunidades.
Germano Oliveira – Você escreveu três livros — O Vazio, Pequenas Crônicas sobre Grandes Coisas do Dia a Dia e está lançando As Perdas no Caminho em Busca de uma Família. Ao relatar experiências pessoais, como gestações e relacionamentos, isso ajudou de alguma forma a melhorar sua relação no ambiente corporativo?
Renata Seldin – Não sei se ajudou a melhorar minha relação no ambiente corporativo, e nem era esse o objetivo. Minha intenção foi mostrar às mulheres que elas não estão sozinhas em uma luta muitas vezes silenciosa.
Os livros são baseados em autoficção, com a Renata como personagem principal, e relatam dificuldades que vivi como executiva de uma multinacional brasileira. Alcancei o cargo que sempre desejei, mas ao refletir percebi tudo o que precisei abrir mão, inclusive a maternidade.
No meu último livro, falo sobre a busca por uma família. Aos 37 anos, descobri que tinha baixa reserva ovariana e nunca havia sido informada sobre isso — nem pelos meus pais, que não tinham essa informação, nem pela minha médica, nem pela empresa. Eu sabia que não queria ser mãe antes de atingir determinado cargo, mas queria manter essa possibilidade. Se tivesse tido informação antes, poderia ter tomado decisões como congelamento de óvulos e planejamento financeiro atrelado à carreira.
Não advogo que mulheres devam ser mães. Defendo o direito de manter a escolha ativa — e isso só é possível com informação.
Vocês mencionaram números de feminicídio no início do programa. Quanto dessa violência não está ligada à dependência financeira da mulher, que não tem condições de sair de casa com os filhos?
Planejamento financeiro é essencial para garantir autonomia e direito de escolha. Ele nos coloca de volta à mesa para negociar salário, políticas inclusivas e oportunidades estratégicas. Tudo começa pela autonomia. Sem ela, ficamos à mercê das escolhas dos outros.
Germano Oliveira – Suas obras ajudaram outras mulheres a resolver problemas que elas nem imaginavam ter?
Renata Seldin – Sim, e isso é motivo de orgulho. Saí da vida corporativa em 2024 para me dedicar à escrita e às pautas femininas. Hoje não exerço mais liderança direta em empresas, mas sinto a necessidade de educar também os homens, especialmente líderes, que terão mulheres em suas equipes passando por essas questões.
Realizo rodas de conversa e mentorias para mulheres de 20 e 30 anos, incentivando que conheçam sua reserva ovariana. Elas não precisam decidir naquele momento se querem ser mães, mas precisam preservar a possibilidade de escolha.
Nas mentorias, abertas também a homens, discutimos prioridades em cada fase da vida. No início da carreira, buscamos credibilidade e visibilidade. Depois, podem surgir novos desejos: constituir família, diminuir o ritmo ou dedicar-se a causas com maior propósito. Como seres humanos, evoluímos, e nossas prioridades mudam.
SERVIÇO

As perdas no caminho: em busca de uma família
Autor: Renata Seldin
Editora: Inverso
Páginas: 168
Renata Seldin é escritora, palestrante e executiva brasileira, reconhecida por transformar experiências pessoais profundas em reflexões públicas sobre maternidade, carreira e igualdade de gênero. Doutora em Gestão da Inovação, construiu trajetória de mais de duas décadas no mundo corporativo, com atuação em consultoria e estratégia organizacional. Nos últimos anos, passou a dedicar parte significativa de seu trabalho à produção literária e à defesa de pautas relacionadas ao universo feminino.
Além da produção literária, Renata Seldin atua como palestrante e articulista, discutindo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, liderança feminina e os desafios enfrentados por mulheres no ambiente corporativo. Sua experiência executiva sustenta análises práticas sobre cultura organizacional e equidade de gênero, conectando vivências individuais a questões estruturais do mercado de trabalho. Nas redes sociais e em plataformas digitais, a autora compartilha crônicas e reflexões sobre luto, autoestima e reconstrução.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:



