A violência contra a mulher, uma epidemia nacional, segundo os estudos. (Foto Divulgação)


Um estudo recente realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha revelou que, entre fevereiro de 2024 e 2025, ao menos 21,4 milhões de brasileiras sofreram violência física, sexual ou psicológica. Esse número representa 37,5% da população feminina do país, o maior percentual já registrado na pesquisa Visível e Invisível: Vitimização de Mulheres no Brasil, divulgada nesta segunda-feira, 10.

A pesquisa, que acontece a cada dois anos desde 2017, mostra um aumento de 8,6% em relação ao último levantamento, realizado em 2023. A violência mais comum é composta por insultos, humilhações e xingamentos, afetando 31,4% das mulheres, o que equivale a mais de 17 milhões de pessoas. Em seguida, está a violência física, como batidas, empurrões e chutes, que vitimaram 8,9 milhões de mulheres (16,9%). Ameaças de violência física e a prática de stalking (perseguição) atingiram 8,5 milhões de mulheres, cada uma, correspondendo a 16,1%.

Além disso, 10,7% das mulheres, ou cerca de 5,3 milhões, sofreram ofensas sexuais ou tentativas forçadas de manter relações sexuais. Cerca de 4,3 milhões sofreram lesões corporais causadas por objetos arremessados contra elas.

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O grupo mais afetado pela violência no último ano foram mulheres entre 25 e 34 anos (43,6%), seguidas por aquelas de 35 a 44 anos (39,5%) e de 45 a 59 anos (38,2%). Os principais agressores são companheiros, em 40% dos casos, e ex-companheiros, em 26,8%.

Os dados do estudo indicam que, em 2017, os parceiros íntimos eram responsáveis por 19,4% dos casos de violência grave, proporção que duplicou ao longo dos oito anos de pesquisa. A participação de ex-parceiros também cresceu, passando de 16% para 26,8%.

Em 57% dos casos de violência grave, os episódios ocorreram dentro de casa. Entre as mulheres entrevistadas, 91,8% disseram ter sido violentadas na frente de terceiros, e 47,3% dessas testemunhas eram amigos ou conhecidos. Uma em cada quatro mulheres sofreu violência na frente dos filhos, representando 27% dos casos.

O estudo destaca que a violência doméstica raramente ocorre de forma isolada e única. Geralmente, essas violências acontecem de forma encadeada e gradual, podendo ter um desfecho fatal se não houver interrupção. Isso significa que os filhos provavelmente testemunham uma série contínua de episódios violentos.

Uma nova categoria de violência foi adicionada à pesquisa: a divulgação não consensual de fotos e vídeos íntimos. Estima-se que ao menos 1,6 milhão de mulheres com 16 anos ou mais tenham sofrido esse tipo de violência.

ASSÉDIO

A pesquisa também revelou que pouco mais de 29 milhões de mulheres sofreram assédio no último ano, o que representa 49,6% das brasileiras com 16 anos ou mais. Os tipos de assédio incluíram:

  • Cantadas e comentários desrespeitosos na rua: 40,8% das mulheres
  • Assédio físico em transporte público: 20,5% das mulheres
  • Toques não consensuais em festas e baladas: 15,3% das mulheres
  • Agarradas ou beijadas sem consentimento: 11,3% das mulheres

VITIMAS

A maioria das vítimas, 47,4%, não tomou nenhuma atitude em relação à violência sofrida. Esse padrão persistente sugere barreiras estruturais, emocionais e institucionais que dificultam a busca por apoio e proteção. A segunda atitude mais frequente é buscar ajuda de familiares (19,2%) ou amigos (15,2%). Apenas 14,2% procuraram auxílio em órgãos oficiais como a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, enquanto 10,3% buscaram a delegacia comum. A procura por igrejas (6,0%) superou a ligação para a Polícia Militar (2,2%) e a Central de Atendimento à Mulher (1,8%).

Esses dados indicam uma resistência ou limitação no acesso das mulheres aos canais oficiais de apoio, possivelmente devido ao estigma social e ao temor de julgamento ou responsabilização pela violência sofrida.

Justificativas para a Falta de Comunicação com a Polícia

As principais razões para a falta de comunicação com a polícia incluem:

  • 36,5% das mulheres conseguiram resolver a situação sozinhas
  • 17,7% relataram falta de provas das agressões
  • 14% acreditavam que a polícia não resolveria o problema ou não queriam envolver a polícia
  • 13,9% temiam represálias
  • 13,7% não consideravam importante

A pesquisa foi realizada com o apoio do Uber, pelo Fórum Nacional de Segurança Pública. Foram entrevistadas 2.007 pessoas, sendo 1.040 mulheres, em 126 municípios de pequeno, médio e grande porte entre 10 e 14 de fevereiro de 2025. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.