Luiz Cesar Pimentel*
Lá se vão 20 anos desde que acompanhei a primeira série televisiva de roteiro e características inovadoras conquistar o mundo, como o cinema costumava fazer desde sempre. De lá para cá, os longas (e curtas) não souberam reagir, e chegamos ao atual quarto de século 21 com uma diferença tão brutal entre as duas produções que é desleal sequer compará-las.
Comecei a comparação com um exercício mental, de quantos seriados e quantos filmes foram lançados durante o corrente ano que resistirão ao teste do tempo, com a devida relevância mantida.
Entre as séries, pincei pelo menos 10 com tais características de qualidade: a recente Eternauta, com o Darín, The Pitt (com Noah Wyle, de ER), Seus Amigos e Vizinhos (Jon Hamm), O Estúdio (Seth Rogen), Dia Zero (Robert de Niro), e novas temporadas de White Lotus, Hacks, Last of Us, Ruptura e O Urso.
Em filmes, lembrei de três: O Conclave, O Brutalista e Um Completo Desconhecido. Só que o trio tem a data de lançamento neste ano somente no Brasil, pois nos EUA foram lançados entre Outubro e Dezembro do ano passado. Ou seja, zero filmes realmente relevantes até agora.
Importante dizer que a produção audiovisual continua numericamente favorável ao cinema. Nos EUA, por exemplo, a proporção é de quase dois filmes para um seriado (ou temporada) anualmente – em 2023, foram mais de 800 longas versus 480 séries. Mesmo que seriados sejam compostos por capítulos, em bem mais horas de estúdio.
Só que a diferença que mais aborrece é quanto ao papel disruptivo, inovador e criativo de cada. Pense no último filme que apresentou uma inovação, uma maneira nova de contar uma história ou mesmo um reflexo social importante. Talvez Ainda Estou Aqui tenha esbarrado no último quesito, tendo sido citado até no STF como motivador de algumas tomadas de decisão. Mesmo que o longa tenha característica de documentário, e que as conquistas sejam de reparação, isso não diminui a importância.
Agora pensa em seriados nas mesmas características.
Eternauta cumpre uma tarefa semelhante a Ainda Estou Aqui, de história relativa e crítica ao regime ditatorial (da Argentina, no caso). Mas peguemos o exemplo mais bem acabado do ano, a série Adolescência. Esta gabarita todos os pontos de importância da obra.
É contada de maneira inovadora, de certo modo, já que cada um dos quatro episódios é um plano-sequência de quase (ou mais que) uma hora. A temática e os personagens são arrebatadores, com argumento crível e atual. E a conquista de mobilização social sem equivalente na indústria dos longas, causando um reposicionamento da sociedade diante de um universo adolescente digital completamente desconhecido dos adultos.
Não à toa os números são tão impactantes.
A produção é britânica e teve público de 114 milhões de visualizações na Netflix, plataforma para a qual foi produzida. Considere que a média de público é no mínimo dobrada, já que a maioria das pessoas assiste acompanhada por uma ou mais pessoas.
E compare com os números da telona. A maior audiência da história do cinema brasileiro é de cerca de 12 milhões de pessoas, para um filme da série humorística Minha Mãe é uma Peça.
Dá para dizer que os seriados estão ganhando de lavada, e com méritos.





