Levantamento do Banco Central, encaminhado ao Ministério Público, aponta que o Banco Master teria usado a EBN Comércio, Importação e Exportação Ltda. — empresa ligada a um cartel de licitações públicas — para desviar R$ 385 milhões de recursos de depositantes. O dinheiro foi transferido para fundos administrados pela gestora Reag e, em seguida, realocado em uma cadeia de operações financeiras consideradas fraudulentas. O caso integra um conjunto de transações que, segundo o jornal Valor, teria provocado um desvio total de R$ 11,5 bilhões.
A engrenagem do esquema
A EBN, controlada por Julio Manfredini, obteve empréstimo junto ao Master sem justificativa econômica aparente. Logo depois, os recursos foram destinados ao fundo D Mais, da Reag, e redistribuídos em operações que mascararam o destino final do dinheiro. Documentos mostram que a empresa tem histórico de participação em licitações públicas para fornecimento de kits escolares, calçados ao Exército e cisternas para o semiárido nordestino.
Em ao menos um caso, a licitação foi viabilizada por emendas parlamentares. O então senador Roberto Rocha (Republicanos-MA) solicitou que fosse usada uma ata de registro de preços do Instituto Federal do Ceará para a compra de 500 cisternas, em 2017. O expediente, embora legal, chamou atenção por ter partido de um político, e não das áreas técnicas da Codevasf, responsável pelo programa Água para Todos.
Ligações com cartel
Manfredini já presidiu a Capricórnio S/A, condenada em 2021 pelo Cade por cartel em licitações de uniformes e materiais escolares entre 2007 e 2012. A Capricórnio foi também alvo de processos criminais e civis em São Paulo, além de investigações no Tribunal de Contas da União. Registros indicam que a EBN sucedeu a Capricórnio, mantendo endereço e parte dos funcionários.
Entre 2016 e 2024, a EBN assinou contratos com o Exército para fornecimento de barracas, uniformes e calçados. Embora não haja suspeitas diretas sobre esses contratos, técnicos do TCU apontaram falhas na fiscalização de calçados entregues. A empresa também integrou consórcios com outras companhias, algumas delas investigadas por irregularidades em fornecimento de livros didáticos.
Defesa das empresas e autoridades
Em nota, a EBN afirmou que o empréstimo foi lícito e destinado à aquisição de uma grande empresa do setor têxtil, operação que não se concretizou. A companhia disse ainda que liquidou o crédito junto ao Master e que todas as suas parcerias passaram por mecanismos de compliance. A Capricórnio declarou que mantém estrutura independente e que decisões judiciais até o momento foram favoráveis à empresa.
O senador Roberto Rocha negou irregularidades e disse que a adesão à ata de registro de preços foi decisão administrativa para viabilizar emendas dentro do cronograma orçamentário. A Codevasf e o IFCE também defenderam a regularidade dos procedimentos. O Exército informou que os contratos com a EBN estão disponíveis no Portal da Transparência e que não há indícios de irregularidades.


