Nascido em Paris e criado no Rio de Janeiro, Hermano da Silva Ramos levou a bandeira do Brasil às pistas europeias nos perigosos anos 50 da Fórmula 1.
Carinhosamente chamado de Nano por amigos e familiares, Ramos completará seu centenário no próximo dia 7 de dezembro.
Vivendo sossegado em um balneário francês, Hermano da Silva Ramos destoa da Fórmula 1 tecnológica e milionária de hoje. O piloto, um dos pioneiros brasileiros na categoria, representa a era mais romântica – e arriscada – do automobilismo mundial. De sua residência em Biarritz, cidade costeira de 26 mil habitantes no sudoeste da França, o ex-piloto de F1 concedeu uma entrevista exclusiva, falando sobre sua carreira e a categoria. Mesmo com a idade quase centenária, Hermano, que mora na França há seis décadas e concedeu a entrevista em francês, lembrou com clareza os episódios marcantes de sua trajetória e as corridas de Fórmula 1 que disputou nos anos 50.
Hermano da Silva Ramos, conhecido pelos europeus como Da Silva, foi o terceiro piloto a representar o Brasil na Fórmula 1, uma categoria que vivia sua década de estreia, marcada por acidentes fatais e o domínio de lendas como Juan Manuel Fangio. Apenas Chico Landi e Gino Bianco o precederam. Nano alinhou em sete Grandes Prêmios oficiais de F1 em 1955 e 1956, sempre pela antiga equipe francesa Gordini. Ele acelerou em circuitos lendários, como Silverstone, o antigo traçado de Monza, com suas curvas inclinadas, e o mítico Monte Carlo, local de seu melhor resultado na categoria. “Eu fiz o quinto lugar no Grande Prêmio de Mônaco de 1956. Foi formidável!”, recorda Nano. Essa quinta colocação rendeu-lhe dois pontos e o colocou como o piloto da Gordini mais bem classificado naquela corrida.

Por 14 anos, Hermano deteve a marca de maior pontuador brasileiro na F1, superada apenas no GP da Alemanha de 1970, quando Emerson Fittipaldi, em sua segunda prova na categoria, terminou em quarto lugar. Antes de Hermano, Chico Landi havia conquistado 1,5 ponto no GP da Argentina de 1956, após dividir a pilotagem de sua Maserati com o italiano Gerino Gerini. Além das provas oficiais, Nano disputou outros oito GPs não oficiais entre 1956 e 1959, ora com um Gordini, ora com uma Maserati.
Na década dominada por Juan Manuel Fangio, Hermano fez amizades e enfrentou grandes nomes como Alberto Ascari, Jack Brabham e, especialmente, Stirling Moss. “Eu era muito amigo do Fangio, que era o maior piloto de todos. Mas o Stirling Moss também era muito bom. Para mim, ele era o melhor”, afirma Hermano, que complementa sua análise, lembrando uma vitória sobre o britânico: “Fora da Fórmula 1, lembro que venci o Stirling Moss numa corrida de Gran Turismo. Naquela prova, eu tinha um bom carro da Ferrari.” Ele questiona, contudo, a primazia de Fangio sobre Moss, apontando a vantagem técnica do argentino: “O Fangio é considerado o melhor, mas para mim o melhor é Stirling Moss. Quando ele correu contra o Fangio, o argentino já era mais velho e experiente. Aí deram preferência ao Fangio com os carros que dominavam na época; as Mercedes sobravam nas corridas. Então, deram a Fangio o melhor carro e ele ganhou aquele campeonato mundial.”

Além da Gordini, Nano pilotou o lendário carro italiano em competições de Gran Turismo. Ele demonstrou orgulho de ter guiado para a Ferrari, lembrando de um encontro com o comendador Enzo Ferrari, fundador da escuderia. “O Enzo me chamou para conversar. Ele me deu dois conselhos: mantenha-se na pista e seja rápido. Ele me disse que não iria falar sobre isso novamente. Ele falou que se eu quisesse ganhar deveria fazer dessa forma ou, então, ele me colocaria para fora. Eu fui lá e ganhei a corrida seguinte”, recorda Hermano. Em uma de suas quatro participações nas 24 Horas de Le Mans, em 1959, pilotando uma Ferrari 250 Testa Rossa, Nano chegou a bater o recorde de melhor volta da pista na época, mas foi traído por problemas mecânicos.
A paixão pelo esporte a motor foi despertada em Hermano ainda nos anos 40, no Rio de Janeiro. Uma de suas primeiras provas foi o Circuito da Praça Paris, em 1948. Perguntado sobre qual país representava nas pistas, o piloto nascido em Paris, mas filho de pai brasileiro e mãe francesa, não hesitou: “Eu corria pelo Brasil.” Encerrando a entrevista, Hermano da Silva Ramos, que deixou o automobilismo aos 35 anos, mandou um recado em português aos amantes da velocidade. “Sinto que sou muito mais brasileiro do que francês no automobilismo. Muito obrigado e até logo, amigos da Fórmula 1. Tchau!”, disse Nano, o piloto mais longevo da história da F1. (Por Marcio Arruda, da RFI em Paris)





