Moisés Rabinovici*
O brutal ataque de Israel ao Líbano, ontem, com 303 mortos, converteu-se hoje em negociações diretas de paz entre dois países em guerra há 78 anos.
O presidente libanês, Joseph Aoun, vinha apelando por negociações com Israel desde que o Hezbollah disparou foguetes e drones contra o norte israelense, em solidariedade ao Irã e em retaliação ao assassinato do aiatolá Ali Khamenei.
O general Aoun, cristão maronita, tentou evitar as retaliações israelenses, que destruíram o reduto do Hezbollah ao sul de Beirute, deslocaram mais de 1 milhão de libaneses e mataram ao menos 1.888 pessoas, além de ferir outras 6 mil. Tropas israelenses também avançaram pelo sul do Líbano até as cidades de Tiro e Sidon, criando uma zona tampão entre os dois países.
“A única solução para a situação que o Líbano enfrenta é um cessar-fogo com Israel que leve a negociações diretas entre os dois países”, publicou hoje a Presidência, em Beirute.
Um mês após o primeiro apelo, nesta quinta-feira, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não apenas aceitou a proposta como pediu que as negociações comecem com urgência.
O embaixador americano em Beirute, Michel Issa, foi nomeado chefe da delegação dos EUA. O embaixador libanês em Washington, Nada Hamadeh-Moawad, representará o Líbano. E o embaixador israelense nos EUA, Yechiel Leiter, foi escolhido por Israel, depois que o preferido de Netanyahu, o ex-ministro Ron Dermer, se declarou impedido. Há um mês, cogitava-se que os encontros ocorreriam em Chipre ou Paris.

Pelo acordo de cessar-fogo de novembro de 2024, o Líbano deveria desarmar o Hezbollah — o que não ocorreu. O governo libanês também declarou persona non grata o embaixador iraniano em Beirute, dando-lhe uma semana para deixar o país, mas ele permanece na embaixada. Com a queda do ditador sírio Bashar al-Assad, que via o Líbano como parte da “Grande Síria”, os libaneses vislumbraram, pela primeira vez, a possibilidade de exercer soberania plena sobre todo o território. Mas resta a questão central: o Hezbollah.
O Hezbollah (“Partido de Deus”) começou a se formar após a invasão israelense do Líbano, em 1982, com armas, financiamento e treinamento da Guarda Revolucionária iraniana. Ocupou o espaço deixado pela Organização de Libertação da Palestina (OLP), expulsa por Israel de Beirute — com seu líder, Yasser Arafat, exilado em Túnis.
A OLP havia chegado ao Líbano após o chamado “Setembro Negro”, em 1970, quando fracassou na tentativa de derrubar a monarquia jordaniana e foi expulsa do país. Sua presença tornou-se um dos fatores da guerra civil libanesa, que opôs cristãos e muçulmanos e se entrelaçou com confrontos recorrentes com Israel.
Se avançarem, as negociações poderão transformar o Líbano no terceiro vizinho árabe de Israel a assinar um tratado de paz, depois de Egito e Jordânia. Esse cenário, porém, permanece suspenso enquanto o Hezbollah continuar armado.
O Hezbollah lançou alguns foguetes contra o norte de Israel nesta quinta-feira, sem causar vítimas. Israel se conteve e não respondeu. O grande ataque de ontem colocou em risco o frágil cessar-fogo anunciado por Estados Unidos e Irã.
O Estreito de Ormuz chegou a ser fechado ontem, antes mesmo de ser reaberto, em reação aos ataques israelenses no Líbano. Hoje, porém, voltou a operar, permitindo a passagem de um petroleiro de bandeira gabonesa, com sete mil toneladas de óleo dos Emirados Árabes Unidos para o porto de Aegis Pipavav, na Índia.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, classificou a guerra como uma vitória para o Irã e afirmou que a decisão de aceitar o cessar-fogo e iniciar negociações foi aprovada por Khamenei, descrito como “mujahid” (combatente da fé).
O encontro previsto para sábado, em Islamabad, entre o vice-presidente J.D. Vance e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, carrega uma pauta repleta de ambiguidades. Cada lado parece se apoiar em versões distintas dos termos em discussão: em uma, o Líbano não faria parte do cessar-fogo; em outra, a trégua abrangeria todas as frentes. Em uma, o Irã manteria o direito de enriquecer urânio; em outra, haveria tolerância zero.
Um acordo em duas semanas é considerado improvável. Ainda assim, o simples fato de Israel e Líbano aceitarem negociações diretas — após décadas de hostilidade e um dos dias mais violentos do conflito — cria uma rara abertura histórica, cujo desfecho dependerá, sobretudo, do destino do Hezbollah.
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





