Moisés Rabinovici*
Enquanto, em Washington, Líbano e Israel davam “um passo histórico rumo a um acordo de paz”, como disse o secretário de Estado Marco Rubio, o Hezbollah disparava 30 foguetes contra o norte israelense.
O primeiro encontro direto entre os dois países em guerra desde 1948 foi deliberadamente minimizado para evitar expectativas excessivas: “apenas um começo”, “um processo” — não um “acontecimento”, como alguns assessores chegaram a sugerir.
Em uma mesa em U, sentaram-se a embaixadora libanesa Nada Hamadeh, de um lado, e, de frente, o embaixador israelense Yechiel Leiter, tendo ao centro Rubio e o conselheiro do Departamento de Estado Michael Needham.

“A esperança hoje é delinear a estrutura sobre a qual uma paz permanente e duradoura possa ser construída, para que o povo de Israel viva em paz e o povo do Líbano viva não apenas em paz, mas também com a prosperidade e a segurança que merecem”, declarou Rubio.
Duas horas depois, o embaixador Leiter afirmou a repórteres que os dois países estão “unidos para libertar o Líbano da influência iraniana”. Otimista, acrescentou: “Descobrimos hoje que estamos do mesmo lado da equação”.
Uma nota conjunta caracterizou o encontro como preparatório para negociações de paz. Nela, os Estados Unidos parabenizam os dois países pelo marco histórico e expressam apoio à continuidade do diálogo, bem como aos planos do governo libanês de restaurar o monopólio da força e pôr fim à influência opressiva do Irã.
O texto reafirma o direito de Israel de se defender dos ataques recorrentes do Hezbollah e enfatiza que qualquer cessar-fogo deve resultar de negociações entre Jerusalém e Beirute. Irã e Paquistão tentaram incluir o Líbano no cessar-fogo de duas semanas em vigor, mas Israel e Estados Unidos rejeitaram a proposta, alegando que o país não fazia parte do acordo.
A parte libanesa da nota reafirma os princípios da integridade territorial e da plena soberania do Estado, ao mesmo tempo em que apela por um cessar-fogo e por medidas concretas para aliviar a grave crise humanitária decorrente do conflito.
Já Israel declara apoio ao desarmamento de todos os grupos armados não estatais e ao desmantelamento de sua infraestrutura no Líbano, comprometendo-se a trabalhar com o governo libanês para alcançar esse objetivo e garantir a segurança de ambos os povos.

Israel também manifesta disposição de participar de negociações diretas para resolver questões pendentes e alcançar uma paz duradoura que fortaleça a segurança, a estabilidade e a prosperidade regional.
A embaixadora Nada Hamadeh, em breve fala a jornalistas, reforçou “a integridade territorial e a plena soberania do Estado libanês”, além de apelar por cessar-fogo e pelo retorno dos deslocados às suas casas. Confirmou ainda que uma nova reunião está em preparação, sem data definida.
Em Beirute, o presidente Joseph Aoun afirmou que o encontro “pode marcar o início do fim do sofrimento do povo libanês, em especial no sul do país”. Acrescentou que “a única solução” passa pelo reposicionamento do Exército libanês nas fronteiras reconhecidas internacionalmente, como única autoridade responsável pela segurança — numa referência indireta ao Irã e ao Hezbollah.
O ministro da Cultura, Ghassan Salame, lembrou que 2.055 libaneses morreram e mais de 1,2 milhão foram deslocados desde a retomada da guerra, em 2 de março. Para ele, o encontro em Washington foi apenas preliminar: “O desarmamento do Hezbollah é irreal em meio às bombas e ao sofrimento de civis”.
A guerra seguiu violenta no sul do Líbano. Um comandante de batalhão israelense foi evacuado de helicóptero em estado grave, e outros dez soldados ficaram feridos. Três combatentes do Hezbollah se renderam em Bin Jbeil, sob ataque há dois dias. A aviação israelense bombardeou Aadshit, de onde 130 foguetes teriam sido lançados contra o norte de Israel.
Um grupo de mais de 20 países europeus, incluindo França e Reino Unido, instou Líbano e Israel a “aproveitar a oportunidade criada pelo cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos” e avançar nas negociações. Em Jerusalém, o chanceler Gideon Saar respondeu: “Queremos alcançar a paz e normalizar relações com o Estado libanês. Nossos países não têm grandes disputas entre si. O problema é o Hezbollah”.
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





