Presidente Lula durante 4.ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia. Feira de Barcelona, Espanha. Foto: Ricardo Stuckert / PR


Em um desafio direto à política externa de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou neste sábado (18), em Barcelona, Espanha, que o líder americano não tem autoridade legal ou política para excluir a África do Sul do G20.

Durante a 4ª Reunião do Fórum Democracia Sempre, na Espanha, Lula subiu o tom contra o isolacionismo de Washington e convocou o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, a resistir. “Vamos brigar para você ir para o G20 nos Estados Unidos, porque o presidente americano não tem o direito de tirar você. Ele não é dono do G20”, declarou Lula, em frase curta e incisiva que sintetizou o clima de confronto diplomático. O petista incentivou Ramaphosa a comparecer à cúpula de dezembro, em Miami, mesmo sem o convite da Casa Branca: “Se prepare para você ir aos Estados Unidos ficar lá na porta para entrar”.

O embate é o capítulo mais recente de uma crise que começou em novembro passado, quando Trump anunciou que barraria a África do Sul do fórum sob a alegação, sem provas, de que haveria um “genocídio” de fazendeiros brancos no país — acusação classificada como falsa por agências internacionais e pelo próprio governo sul-africano.

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Desde então, Trump boicotou a cúpula de 2025 em solo sul-africano e cortou subsídios ao país. Em resposta, Ramaphosa reafirmou a soberania de sua nação, lembrando que o G20 é um grupo de consenso e que a África do Sul é membro permanente desde a fundação, em 1999.

Além da defesa do aliado, Lula usou seu discurso para diagnosticar o que chamou de “destruição do multilateralismo”. Ele lamentou o esvaziamento da ONU e alertou que o enfraquecimento das leis internacionais dá lugar à barbárie. “Vai prevalecer a força do senhor da guerra”, criticou o presidente brasileiro, em referência ao poder financeiro e tecnológico que tem atropelado decisões coletivas.

“A ONU é um instrumento muito valioso se ela funcionar e ela precisa funcionar para garantir, por exemplo, que as plataformas sejam reguladas no mundo inteiro”, defendeu Lula. Ele encerrou sua participação sugerindo que o documento final do encontro na Espanha seja um chamado global para discutir o estado atual do mundo, onde, segundo ele, não se pode aceitar que quem tem mais dinheiro “possa fazer tudo”.

O Fórum Democracia Sempre, criado em 2024 por Lula e pelo premiê espanhol Pedro Sánchez, tenta justamente articular uma frente progressista contra o avanço de líderes autoritários e as tensões globais alimentadas por Trump.