Benedito Tadeu César


Benedito Tadeu César*

Mesmo com a melhora recente da renda e a redução da pobreza, o Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo — e essa estrutura condiciona a economia, a percepção social, o comportamento político e o voto.

O limite invisível do crescimento

O custo de vida elevado, o crédito caro e o endividamento das famílias não são fenômenos isolados. Eles se inserem em uma característica mais profunda da sociedade brasileira: sua estrutura altamente desigual. É essa desigualdade que explica por que avanços relevantes — como a queda do desemprego e a elevação da renda — não se traduzem, de forma proporcional, em bem-estar generalizado. O crescimento econômico ocorre, mas seus efeitos se distribuem de maneira assimétrica, preservando a estrutura social que organiza o país.
Segundo dados do Banco Mundial, o Brasil mantém um índice de Gini em torno de 0,518, situando-se mais recentemente na faixa entre 0,49 e 0,52 (sendo 0 igualdade perfeita e 1 desigualdade máxima), permanecendo entre as sociedades mais desiguais do mundo. Estimativas baseadas em dados tributários indicam que o 1% mais rico concentra cerca de 25% a 30% da renda nacional. Esses números não expressam apenas uma disparidade elevada, mas uma forma específica de organização social que se reproduz de maneira persistente ao longo do tempo.

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Mudança sem transformação estrutural

A manutenção histórica da desigualdade no país não significa imobilidade absoluta. É importante reconhecer que houve avanços e melhora recente em indicadores sociais importantes. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam melhora nos indicadores de renda e redução da pobreza nos últimos anos, especialmente em 2024. Desde o Plano Real, a renda per capita cresceu 70% e políticas sociais contribuíram para reduzir em 18% os níveis mais extremos de privação.

Ainda assim, essa trajetória não foi contínua e sofreu interrupções importantes. Tais avanços operam dentro de limites estreitos: eles alteram as margens, mas não reconfiguram a estrutura. O Brasil melhora, mas não transforma sua desigualdade estrutural. Em termos sociais, isso significa que a maioria da população pode experimentar alguma melhora relativa sem que ocorra uma mobilidade efetiva. Economicamente, o crescimento não se traduz em expansão ampla e equilibrada do consumo; politicamente, os indicadores positivos não bastam para produzir uma sensação de progresso coletivo.

Um país mais desigual que seus vizinhos

A comparação internacional torna a desigualdade estrutural ainda mais evidente. Mesmo sendo a maior economia da América Latina, o Brasil segue mais desigual do que países latino-americanos comparáveis. Esse descompasso indica que o problema não reside apenas no nível de desenvolvimento, mas na forma como a renda é apropriada e distribuída. O país produz riqueza, mas a mantém de maneira altamente concentrada.

A desigualdade como experiência social

A desigualdade não é apenas um dado estatístico; ela se manifesta no cotidiano. Dados do IPEA indicam que cerca de 5,5% da população vive em extrema pobreza, enquanto aproximadamente 11,5% encontram-se abaixo da linha ampliada de pobreza. Além destes, cerca de 30% dos brasileiros vivem com renda muito baixa, subsistindo com menos de R$ 21,25 por dia.

Há também desigualdades marcantes dentro da população pobre: a pobreza entre pessoas negras é mais que o dobro da observada entre brancos, sendo mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste e nas periferias urbanas. Trata-se de uma desigualdade que combina dimensões econômicas, raciais e territoriais. Essa condição limita o acesso a bens e define o horizonte de expectativas.

Um limite ao próprio crescimento

A concentração de renda atua como resultado e como limite do funcionamento econômico. Ela restringe o consumo, reduz o dinamismo do mercado interno e dificulta trajetórias sustentadas de crescimento. A CEPAL reitera que a região apresenta níveis de concentração elevados: os 10% mais ricos detêm cerca de 34% da renda, enquanto os 10% mais pobres concentram apenas entre 1% e 2%. O Brasil é um dos exemplos mais expressivos desse padrão.

Por que redistribuir é tão difícil

A persistência da desigualdade está ligada à dificuldade de implementar políticas redistributivas. A história brasileira mostra que iniciativas nesse sentido encontraram resistência recorrente. O governo de João Goulart, que propunha reformas estruturais, foi interrompido por um golpe de Estado em 1964. Décadas depois, o segundo governo de Dilma Rousseff foi encerrado por um impeachment em um contexto de forte conflito distributivo. Os governos de Luiz Inácio Lula da Silva conseguiram implementar políticas relevantes, como a valorização do salário mínimo, mas sempre dentro de limites definidos.

Atualmente, avanços na legislação tributária que passarão a vigorar em 2027 devem acelerar a redistribuição de riqueza. Contudo, a configuração institucional limita essa capacidade. O Congresso Nacional, com predominância de forças de centro-direita e direita, tende a resistir a mudanças profundas na estrutura distributiva, como a tributação progressiva e a taxação de lucros e dividendos. A influência de setores empresariais, financeiros e da mídia corporativa reforça esse quadro de resistência.

Entre melhora, memória e frustração

Entre 2003 e 2014, houve uma ampliação significativa do acesso ao consumo e melhora das condições de vida. Milhões de brasileiros passaram a acessar bens e serviços antes inacessíveis, como eletrodomésticos, automóveis e ensino técnico ou superior. Esse período produziu uma experiência concreta de mobilidade social e ampliou expectativas.

A partir de 2012–2013, esse ciclo foi desacelerado. O que era trajetória ascendente passou a ser vivido como estagnação. As Jornadas de Junho de 2013 expressaram a frustração com a interrupção desse processo. Nos anos seguintes, a crise culminou no impeachment de Dilma Rousseff e na eleição de Jair Bolsonaro. O que se observa é uma sequência de ascensão, interrupção e frustração. A mobilidade existe, mas é estreita, o que gera uma insatisfação difusa na percepção social.

O eixo silencioso da política brasileira

O Brasil chegou a 2026 com uma combinação particular: melhora parcial de indicadores, persistência da desigualdade estrutural e a memória de um ciclo interrompido. A decisão eleitoral é mediada por essa memória e pela distância entre as expectativas formadas e as possibilidades reais. É nesse intervalo entre dados e experiência que se forma a interpretação do eleitor, orientando seu comportamento de forma mais decisiva do que os indicadores isolados.

*Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e direitor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
*Colaborou: Maria da Graça Pinto Bulhões