O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã provocou uma mudança sísmica no comércio global, gerando comparações urgentes com o colapso das cadeias de suprimentos durante a pandemia de covid-19 e o regime tarifário agressivo do governo Trump.
Enquanto a pandemia revelou a perigosa dependência mundial da manufatura chinesa, o atual conflito no Oriente Médio expôs uma fragilidade distinta: a velocidade com que uma interrupção em matérias-primas essenciais — petróleo, gás e fertilizantes — pode paralisar o comércio internacional.
A Agência Internacional de Energia (AIE) caracterizou recentemente a perda de aproximadamente 10% do suprimento mundial de petróleo e de um quinto do gás natural liquefeito global como a maior interrupção isolada na história do mercado energético.
De choques de demanda a golpes na oferta
Especialistas apontam uma diferença fundamental nesta crise. Enquanto a covid-19 causou um choque generalizado de demanda e as tarifas de Donald Trump forçaram uma mudança estrutural de longo prazo, a guerra com o Irã representa um golpe concentrado e devastador na oferta.
“A pandemia expôs a dependência excessiva de um polo industrial, enquanto o choque de Ormuz expôs a dependência excessiva de um único corredor de transporte e de insumos energéticos”, afirmou Sebastian Janssen, sócio da consultoria nova-iorquina Oliver Wyman.
Durante a pandemia, o modelo de estoque just-in-time — que mantém níveis baixos para reduzir custos — colapsou quando os portos se tornaram gargalos. Desta vez, embora o comércio de bens não energéticos tenha se mantido relativamente estável, o custo disparado do combustível e do seguro está criando uma pressão de natureza diferente.
Um desvio pelo continente
A crise está longe de terminar para a indústria naval. Pela segunda vez em três anos — após os ataques houthis no Mar Vermelho em 2024 — as embarcações estão sendo forçadas a realizar desvios abruptos e dispendiosos.
Navios-tanque e transportadores de gás que antes transitavam por Ormuz estão agora navegando ao redor do Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. O desvio acrescenta milhares de milhas náuticas e até duas semanas ao tempo de viagem. Consequentemente, os prêmios de seguro contra riscos de guerra dispararam, adicionando milhões de dólares ao custo de uma única travessia — despesas que já estão sendo repassadas aos consumidores na forma de preços mais altos para produtos químicos e bens manufaturados.
A ascensão do “just-in-case”
A incerteza persistente está impulsionando uma mudança permanente na estratégia corporativa. De acordo com a pesquisa Allianz Trade Global Survey 2026, que consultou 6.000 empresas em 13 países, o risco geopolítico é agora a principal preocupação para dois terços dos negócios.
Essa ansiedade está acelerando as tendências de reshoring e nearshoring — a transferência da produção para mais perto dos mercados consumidores.
- Diversificação: Empresas estão adotando estratégias “+1” ou “+2”, adicionando fornecedores secundários na Índia, Vietnã ou Indonésia para se proteger contra riscos na China.
- Mudança nos estoques: A filosofia just-in-time está sendo substituída por uma abordagem just-in-case (por precaução). Os estoques de segurança atingiram seus níveis mais altos em três anos, segundo o Índice de Volatilidade da Cadeia de Suprimentos Global da GEP.
“A guerra com o Irã mostra que a pandemia não foi um evento isolado”, disse Lisa Anderson, presidente do LMA Consulting Group. “As empresas perceberam que não podem mais contar com a chegada dos suprimentos exatamente no momento em que são necessários.”
Um teste de estresse sistêmico
Enquanto as empresas se preparam para potenciais choques futuros — que variam de tensões no Estreito de Taiwan à instabilidade na Península Coreana — o foco mudou da logística simples para a “resiliência sistêmica”.
John Sfakianakis, chefe de pesquisa econômica do Gulf Research Center, argumenta que o conflito atual é menos uma escaramuça regional e mais um “teste de estresse” da interconectividade do sistema internacional entre energia, finanças e logística.
O impacto total do bloqueio de Ormuz ainda não foi completamente sentido. “A escassez ainda está se propagando pelas cadeias de suprimentos de múltiplos níveis”, alertou Janssen. “Levará meses para que o efeito completo apareça e para que as cadeias se estabilizem quando o estreito eventualmente for reaberto.”





