Plataforma de petróleo da Petrobras, em alto mar: Brasil é grande produtor do combustível bruto. (Foto: Petrobras)


O governo de Luiz Inácio Lula da Silva acionou uma nova peça no seu tabuleiro econômico para tentar blindar o mercado interno da volatilidade internacional.

Através de um projeto de lei complementar enviado ao Congresso, o Executivo busca autorização para utilizar o excedente de arrecadação com royalties e dividendos do petróleo como fonte direta de subsídio para reduzir tributos federais (PIS/Cofins e Cide) sobre a gasolina e o diesel.

A estratégia representa uma tentativa de equilíbrio entre a manutenção da popularidade e o rigor das contas públicas.

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Ao classificar o mecanismo como uma “exceção” à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o governo evita a necessidade de cortar gastos em outras áreas ou aumentar impostos para compensar a renúncia de receita.

A justificativa oficial é a “neutralidade fiscal”: o dinheiro que entra a mais devido à valorização do óleo no mercado global — impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio — financiaria a redução do preço final ao consumidor.

Pressão política

A medida surge em um momento em que o Planalto monitora com lupa os índices de aprovação do presidente. Em um ano marcado por desafios econômicos, evitar o repique inflacionário nos transportes é visto como prioridade máxima para sustentar o consumo das famílias.

O custo da medida: Segundo cálculos do Ministério do Planejamento, cada redução de R$ 0,10 nos impostos por litro de gasolina geraria um impacto fiscal de R$ 800 milhões em dois meses.

  • Controle temporário: O texto prevê que a redução seja aplicada apenas enquanto durar o cenário de crise internacional e houver arrecadação excedente para cobri-la.

Frestas no teto fiscal

Apesar do otimismo da equipe econômica, o mercado financeiro e especialistas em contas públicas veem a proposta com cautela. A crítica reside no que chamam de “flexibilização oportunista” das regras fiscais. Para analistas do setor, o uso de receitas extraordinárias deveria focar na redução do déficit estrutural do país, e não em subsídios pontuais que podem mascarar a realidade dos preços.

O Ministério da Fazenda, por outro lado, defende que a medida preserva a independência da Petrobras. Em vez de intervir diretamente na política de preços da estatal — um tema historicamente sensível e com potencial de afugentar investidores —, o governo prefere atuar na margem tributária, utilizando o próprio lucro da petroleira como colchão para amortecer o impacto das guerras no bolso do cidadão.