O presidente do Senado, Davi Alcolumbre. (Foto: EBC)


A derrota política sofrida pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva na última quarta-feira ultrapassou a barreira do Legislativo para se tornar uma crise de governabilidade dentro do Palácio do Planalto. A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) — por 42 votos a 34 — não apenas interrompeu uma tradição de 132 anos sem vetos à Corte, mas expôs a fragilidade da base governista no Senado. Sob um clima de desconfiança, o Executivo iniciou uma operação de varredura para identificar “infiéis” e estuda uma reforma administrativa punitiva.

O epicentro da irritação presidencial recai sobre o União Brasil e, especificamente, sobre a ala ligada ao senador Davi Alcolumbre. Interlocutores do Planalto afirmam que Lula considera a exoneração de indicados do parlamentar amapaense em postos federais como uma resposta direta à falta de entrega de votos prometidos. “A conta não fecha”, resumiu um assessor próximo ao presidente, referindo-se ao fato de que o governo empenhou R$ 2,5 bilhões em emendas para senadores apenas em abril, sem obter o quórum necessário.

A anatomia de uma derrota

Após o anúncio do resultado, Lula convocou uma reunião de emergência com Messias e os ministros José Guimarães (Relações Institucionais), José Múcio (Defesa) e o líder no Senado, Jaques Wagner. O tom do encontro foi de perplexidade. Messias havia visitado pessoalmente 77 dos 81 senadores e tinha, em tese, o compromisso de 47 parlamentares. O voto secreto, no entanto, serviu de escudo para uma dissidência silenciosa que deixou o governo com sete votos a menos do que o piso projetado.

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O líder Jaques Wagner, visivelmente desconcertado, admitiu a falha de cálculo: “Esperávamos 45 votos. Cada um votou com sua consciência”. Já José Guimarães transferiu o ônus da explicação ao Legislativo, afirmando que cabe ao Senado detalhar por que rejeitou um nome que preenchia os requisitos técnicos.

O fim da lua de mel

O gráfico das indicações de Lula ao STF neste terceiro mandato desenha uma curva descendente de apoio:

  • Cristiano Zanin (Junho/2023): 58 votos favoráveis.
  • Flávio Dino (Dezembro/2023): 47 votos favoráveis.
  • Jorge Messias (Abril/2026): 34 votos favoráveis (Rejeitado).

O desgaste acumulado e a proximidade das eleições municipais parecem ter alterado a correlação de forças. Na oposição, o tom é de celebração e ironia. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) sintetizou o sentimento da ala conservadora ao comentar a ineficácia da liberação recorde de verbas: “Recebeu emenda e votou contra. Cinema”.

Diante do impasse e do capital político severamente reduzido, o sentimento no Congresso é de que o governo não terá fôlego para apresentar um novo nome antes das eleições. O Planalto agora se divide entre a necessidade de manter o diálogo institucional e o impulso de retaliar aqueles que, nas palavras de um ministro, “comeram no prato do governo e votaram com a oposição”.

O episódio deixa uma lição amarga para o Executivo: em um Congresso cada vez mais empoderado por emendas impositivas, o apoio político já não se compra apenas com canetadas orçamentárias.