O ministro do STF, Gilmar Mendes. (Foto STF)


Em tom de alerta sobre a fragilidade das instituições de controle no Brasil, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu nesta segunda-feira (4) uma reforma estruturante do Estado que vá além do Judiciário. Durante audiência pública sobre a capacidade fiscalizatória da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o decano classificou a regulação do mercado de capitais como uma “prioridade estratégica indelegável” e criticou a opacidade que permitiu escândalos financeiros recentes, como o do Banco Master.

A audiência, convocada pelo ministro relator Flávio Dino no âmbito da ADI 7.791, discute a constitucionalidade da taxa de fiscalização da CVM, mas o debate foi ampliado para a eficiência do órgão.

“Miopia deliberada”

Continua depois da publicidade

Mendes iniciou sua fala rebatendo críticas exclusivas ao STF. Citando dados recentes do Datafolha, que apontam desconfiança da população em relação ao Congresso (45%), Presidência (43%) e ao próprio Supremo (43%), o ministro afirmou que o descrédito é generalizado.

“Pretender resolver a crise de confiança mirando apenas o Supremo é, no mínimo, ingenuidade; mas mais provavelmente, miopia deliberada e intenções obscuras”, disparou o ministro.

Para ele, o país necessita de um “Novo Pacto Republicano” que inclua a racionalização de emendas parlamentares, reforma do sistema eleitoral e o fim de distorções remuneratórias no serviço público.

O “X” do problema: 31 mil fundos e pouca lupa

O ponto central da exposição de Gilmar Mendes foi o descompasso entre a magnitude do mercado financeiro brasileiro e a estrutura de quem deveria vigiá-lo. O ministro apresentou dados da International Investment Funds Association (IIFA) que colocam o Brasil como o país com o maior número de fundos de investimento do mundo: 31 mil.

  • Brasil: 31.000 fundos (US$ 2,6 trilhões em ativos)
  • EUA: 10.000 fundos (US$ 44,8 trilhões em ativos)

Mendes destacou que essa proliferação de fundos, somada à dificuldade histórica de identificar os reais donos do dinheiro (cotistas), criou um ambiente propício para o crime organizado, lavagem de dinheiro e sonegação. “Causa perplexidade que somente em janeiro deste ano a Administração Tributária passou a ser informada sobre os CPFs de seus cotistas”, afirmou, referindo-se a normas recentes da Receita Federal.

Sucateamento em comparação global

Ao comparar a CVM com órgãos similares no exterior, o ministro expôs o que chamou de “disparidade alarmante”. Enquanto a autarquia brasileira opera com cerca de 450 servidores e orçamento de US$ 48 milhões, sua equivalente na Índia (SEBI) possui mais de mil agentes e o triplo do orçamento. No Reino Unido (FCA), o corpo técnico chega a 4.500 servidores com orçamento bilionário.

O diagnóstico de “corrosão da capacidade de supervisão” também foi estendido ao Banco Central. Mendes citou que as ações de fiscalização da autarquia caíram quase 40% nos últimos cinco anos devido à falta de recursos humanos e financeiros.

Reforma das Agências

Como solução, o decano endossou a proposta de uma “Nova Reforma do Judiciário” sugerida por Flávio Dino, mas acrescentou a necessidade de blindar as agências reguladoras. Defendeu que a indicação de diretores e conselheiros abandone o caráter político em favor de parâmetros objetivos de qualificação técnica.

“A regulação dos fundos de investimento e a fiscalização do mercado de capitais é, hoje, prioridade estratégica”, concluiu, reforçando que o caso do Banco Master deve servir de lição para que o Legislativo e o Executivo enfrentem o vácuo regulatório no setor.