Marcos Strecker*
Coube ao ministro Fernando Haddad mais uma vez tentar transmitir segurança para o programa econômico do governo, ao anunciar um pacote de cortes e o aumento de IOF na quinta-feira (22/5). No anúncio das medidas, a presença da ministra do Planejamento, Simone Tebet, tentou aparentar unidade e coesão à equipe.
O governo anunciou o congelamento de R$ 31,1 bilhões do Orçamento. Haverá um contingenciamento de R$ 20,7 bilhões e um bloqueio de R$ 10,6 bilhões. O corte afetará despesas não obrigatórias dos ministérios, como investimento e custeio da máquina pública. Além disso, deve haver um aumento do IOF. Tudo para garantir as metas fiscais este ano e fazer frente à frustração com as receitas.
Os números surpreenderam. Apesar de a divulgação das medidas trazer um alívio temporário, é pouco provável que os agentes financeiros sintam confiança renovada no arcabouço fiscal ou nas intenções de reversão dos rombos fiscais que são largamente previstos em Brasília para abastecer a propaganda da reeleição do presidente.
Com novos programas de caráter eleitoral sendo anunciados quase semanalmente (ainda que com baixa repercussão) e o principal deles (a isenção do IR de R$ 5 mil) podendo causar nas contas públicas um rombo de R$ 100 bilhões, ainda não equacionado, o caminho para o governo cumprir suas promessas parece acidentado, para dizer o mínimo.
No cenário externo, o momento parece propício ao Brasil, já que o dólar mais fraco e a política errática de Donald Trump estão trazendo dinheiro ao Brasil, fazendo a bolsa brasileira bater recordes seguidos. Mas o risco fiscal nos EUA sinaliza potenciais problemas muito mais sérios e danosos na economia mundial à frente.
Gabriel Galípolo deu uma injeção de ânimo na última semana no mercado ao se comprometer com a política monetária restritiva pelo tempo que for necessário, desfazendo um clima de mudança iminente no atual ciclo de alta de juros. Mas eles permanecem em patamares estratosféricos, aumentando a dívida das famílias e contendo as vendas. E a inflação de alimentos permanece um desafio.
A confiança que Haddad tenta demonstrar é frágil. Apesar de depender de seu ministro, o presidente não vai empoderar o titular da Fazenda. Ao contrário, tem se fiado cada vez mais no próprio PT e na esquerda para dar sustentação ao governo, um apoio que falta no Congresso e nos partidos do centrão, uma base cada vez mais rebelde à espera de um anti-Lula.
Mesmo assim, Haddad é a verdadeira âncora do governo, que ainda parece perdido com o escândalo dos desvios de aposentados no INSS e perdeu o bom momento da visita presidencial à China com uma demonstração contraproducente, para dizer o mínimo, de apoio a Vladimir Putin em Moscou, além de ter criado “in house” uma crise envolvendo o vazamento de uma queixa da primeira-dama ao líder chinês.
O problema não é de comunicação nem de fazer frente à oposição estridente. O mandatário e o primeiro escalão do Planalto parecem voltados apenas para si mesmos, admirando as próprias realizações ou criando os próprios inimigos, sem entender que as ruas estão cada vez mais indóceis.





