Marcos Strecker


Marcos Strecker*

A Medida Provisória, editada na última quarta-feira (9), elevou a dificuldade do governo em preservar o arcabouço fiscal de Fernando Haddad.

Algumas das medidas já constavam no decreto de maio que ampliava o IOF, como o aumento das alíquotas para cartões de crédito internacionais.

Continua depois da publicidade

No entanto, o novo pacote trouxe medidas adicionais. Títulos incentivados, como LCI e LCA, e criptoativos passaram a ser tributados, e a taxação de fintechs e de empresas de apostas (bets) também aumentou.

O presidente buscou, com a MP, confrontar o Congresso.

No domingo anterior (8), o governo celebrou uma reunião do ministro com os presidentes da Câmara e do Senado, onde aparentemente um acordo para aprovar esses novos impostos havia sido selado. Contudo, Hugo Motta não possui o mesmo prestígio (nem a mesma habilidade) de seu antecessor, Arthur Lira, e o líder do Senado, Davi Alcolumbre, que Lula tenta cooptar sem sucesso como aliado, isentou-se após o que chamou de “convescote que deu ruim”.

O resultado é que, nos últimos dias, Motta dinamitou a tratativa, criticou o governo por não se comprometer com cortes de gastos e acelerou a votação que pode anular o decreto do IOF.

A péssima reação do Congresso, que é francamente de oposição, ao aumento de impostos limitou as opções do governo para fechar o Orçamento sem implodir o limite de gastos. Daí a investida de quarta-feira.

Porém, foi uma vitória de Pirro. Os parlamentares dispõem de muitos instrumentos para travar a agenda governista.

Um eventual colapso do arcabouço fiscal recairá sobre o Executivo, e com razão.

O governo, até o momento, não se comprometeu com um Orçamento realista e não tem a menor intenção de enxugar a máquina pública; muito pelo contrário.

Um dia após a emissão da MP, Haddad ensaiou um confronto no Congresso com a base oposicionista, mirando influencers-deputados que protagonizaram a “crise do Pix”.

Ele se comparou a Marina Silva, que foi vítima de misoginia no Senado, mas a comparação não surtiu efeito. Haddad não tem o perfil de mártir nem consegue angariar apoio e simpatia, a começar pelo próprio governo.

Alguns dos maiores adversários de Haddad, aliás, estão no próprio Palácio do Planalto.

A atual ministra encarregada da relação com os parlamentares, Gleisi Hoffmann, era, até recentemente, a maior crítica do ministro e de sua política, a qual batizou de “austericídio”.

Rui Costa vive em atrito com o colega de ministério. Até Gabriel Galípolo, que era seu auxiliar antes de ser alçado ao Banco Central, mostrou-se irritado nos bastidores com o tarifaço do IOF, que ele previa ser um desastre (como de fato foi).

Agora, a ordem unida governista é enquadrar a nova crise como uma disputa dos menos favorecidos contra os privilegiados, como fez o próprio Haddad ao dizer que o “dono da cobertura” também vai pagar as contas do condomínio.

Lula aposta novamente no discurso do “nós contra eles”, da defesa dos pobres contra a elite.

“Não fui eleito para fazer benefício para rico”, declarou sobre o último imbróglio.

No entanto, falta humildade para reconhecer que a profusão de benefícios públicos embalados em pacotes publicitários, fórmula que funcionou com João Santana e Duda Mendonça, não emplaca mais com Sidônio Palmeira. A baixa popularidade do presidente demonstra isso.

Como já ficou claro (mas não para o mandatário), não se trata de um problema de marketing ou comunicação.

O eleitor está cansado de benefícios populistas e serviços sociais que podem ser capturados por amigos-sindicalistas sem que o governo aja com eficiência ou mesmo se incomode.

Ele quer ser o responsável pelo próprio sucesso. O governo não consegue enxergar que esse novo eleitor hoje faz contas e paga impostos.

*Marcos Strecker é jornalista.