Marcos Strecker*
Contra a expectativa da maioria do mercado, o Banco Central decidiu na última quarta-feira (18) aumentar novamente a taxa básica de juros, para estratosféricos 15%. Para o Copom, em resumo, a economia ainda está aquecida e apresenta riscos inflacionários persistentes.
Foi uma decisão corajosa, tomada pela unanimidade do colegiado. Ponto para o presidente do BC, Gabriel Galípolo, que bancou essa medida de aperto monetário contra a opinião majoritária do governo federal, do PT e, principalmente, do presidente Lula, que o nomeou, mas não está obtendo a submissão que desejava.
A deliberação é uma anomalia, mas não causada pela autarquia. A política monetária restritiva, que encarece o crédito e esfria a economia, está sendo obrigada a atuar na contramão da política fiscal de Fernando Haddad e do governo Lula, que insistem na ampliação dos gastos públicos, bancados pela ampliação da carga tributária, já excessiva para qualquer país em desenvolvimento.
Em três anos, o governo petista não ofereceu alternativas concretas para destravar a economia sem ampliar impostos. O timing foi perdido. Daqui até a eleição presidencial de 2026, a tentação óbvia será acelerar programas populistas para bancar a reeleição. O arcabouço fiscal, desacreditado desde o início, vai virando poeira a olhos vistos, sem que Lula se preocupe e enquanto Haddad entrega uma MP natimorta de novos impostos ao Parlamento e decide tirar férias em um dos momentos mais delicados de sua gestão.
O aumento do IOF, imposto regulatório que virou taxa arrecadatória para tapar o rombo no Orçamento, caminha para ser derrubado no Congresso. A nova direção do Legislativo, com Hugo Motta (Republicanos, na Câmara) e Davi Alcolumbre (União, no Senado), que Lula e a ministra das Relações Institucionais achavam que conseguiriam domar, mostra-se mais fraca, descoordenada e a reboque do bolsonarismo, que é majoritário no Congresso.
Enquanto cobra cortes nos gastos públicos, ou a “lição de casa do Executivo” (corretamente), a cúpula do Congresso amplia as emendas aberrantes e as benesses injustificáveis para os parlamentares, sem contar o brutal aumento de impostos disfarçados nas contas de energia, com “jabutis” expertos que beneficiam grupos econômicos selecionados.
Lula resolveu bancar o discurso “contra as elites” e pelo aumento dos impostos que atingem apenas o “andar de cima”. Quer responsabilizar o Congresso, esperando que o colapso das contas públicas caia na conta do Parlamento oposicionista. Acha que, com isso, consegue empurrar a crise fiscal até as eleições, que podem lhe ser favoráveis pelos bons índices do PIB e pelo baixo desemprego. Mas os números das pesquisas de opinião são cada vez mais negativos e angustiantes para um político veterano acostumado a ganhar “no gogó”.
A estratégia com o Congresso é temerária. Essa via do confronto foi exatamente o que acelerou a crise do governo Dilma, quando a ex-presidente achou que tinha encurralado o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Deu no que deu. Motta, é bom lembrar, é apadrinhado de Cunha. A ambição de Alcolumbre, mesmo sendo difícil de acreditar, é maior do que a de Renan Calheiros quando presidia o Senado na era Dilma.
Não parece coincidência que Lula tenha elogiado seu vice, Geraldo Alckmin, no último domingo (15). Para o petista, ele tem se mostrado “de uma lealdade extraordinária” e foi “um acerto”, ao contrário de Michel Temer, que deu “um golpe” em Dilma Rousseff. Mas o problema do presidente está longe de ser resolvido.
Enquanto asfixiou a débil coalizão centrista, a começar de Alckmin e de Simone Tebet, Lula turbinou os companheiros encrencados em dezenas de ministérios, que entregam poucos resultados, têm pouca conectividade com um eleitorado que se renovou na última década e ainda patrocinam escândalos matadores como a roubalheira no INSS.
Pior, o presidente acha que vai conseguir jogar mais essa crise, que certamente será um blockbuster na próxima campanha eleitoral, para debaixo do tapete. Acaba de entrar com uma ação no STF tentando tirar a responsabilidade do governo e do INSS dos desvios sofridos por milhões de aposentados, sem que tenha oferecido um plano crível e eficiente para devolver os fundos bilionários surrupiados.
O Congresso erra, certamente, em não oferecer alternativas concretas para o beco sem saída fiscal. Mas o presidente é o principal responsável pela crise que só aumenta e pode estourar antes do pleito de outubro de 2026.
*Marcos Strecker é jornalista





