Nesta semana (27/6), controverso Acordo Nuclear Brasil-Alemanha completou 50 anos — um pacto que, meio século depois de sua assinatura, continua sendo um enorme “bode no meio da sala”.
O tratado, firmado em 27 de junho de 1975, previa a construção de oito usinas nucleares no Brasil, com transferência de tecnologia da então Alemanha Ocidental.
Era chamado, por alguns, como o sociólogo Luiz Ramalho, de “o maior acordo tecnológico do século”. Cinquenta anos depois, no entanto, apenas uma dessas usinas entrou em operação: Angra 2, inaugurada em 2001. Angra 3 permanece em obras desde 1986, consumindo mais de R$ 20 bilhões e sem previsão de conclusão, segundo dados da Eletronuclear. As outras seis, sequer saíram do papel.
O pacto foi assinado em um contexto geopolítico complexo. De um lado, o Brasil da ditadura militar, comandada por Ernesto Geisel, buscava autonomia energética e prestígio internacional.
Do outro, a Alemanha de Helmut Schmidt, em plena Guerra Fria, via o acordo como uma forma de estender sua influência tecnológica ao hemisfério sul.
Ainda assim, o projeto encontrou forte resistência desde cedo. Na Alemanha, o movimento antinuclear ganhava força e pressionava por sua anulação.
Décadas depois, o país europeu desligou suas últimas usinas atômicas, em 2023, encerrando oficialmente sua era nuclear, como noticiado pela Deutsche Welle.
A resiliência do acordo — que sobreviveu aos acidentes de Chernobyl (1986) e Fukushima (2011), à transição energética alemã e a diversas tentativas parlamentares de rescisão, como em 2004, lideradas pelo Partido Verde — não se traduziu em sucesso técnico ou estratégico para o Brasil. Hoje, a energia nuclear representa apenas cerca de 3% da matriz elétrica brasileira, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE, 2023), e o país investe pesadamente em outras fontes, como hidrelétrica, eólica e solar.
Vários fatores explicam o desempenho frustrante do programa. Entre eles está a instabilidade política brasileira.
A redemocratização, nos anos 1980, a alternância de governos e a falta de continuidade administrativa prejudicaram projetos de longo prazo.
Um exemplo claro é Angra 3, iniciada em 1986, paralisada e retomada sucessivas vezes, e que, até 2025, acumula um investimento superior a R$ 20 bilhões, segundo o Tribunal de Contas da União, com avanço físico em ritmo lento e sem previsão de entrada em operação.
Também pesaram fatores econômicos. A energia nuclear — cara e demandante de altos investimentos contínuos — foi preterida em momentos de crise econômica e corte orçamentário. A dificuldade de justificar gastos crescentes com um projeto que não entrega resultados tangíveis se tornou um tema recorrente em relatórios de controle do Congresso Nacional e do TCU.
No plano internacional, o Brasil optou, nos anos 1990, por um caminho de transparência e não proliferação, aderindo ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fortalecendo sua relação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Isso contrastou com a trajetória de países como Índia, Paquistão, Irã e Coreia do Norte. Índia e Paquistão, por exemplo, desenvolveram seus arsenais nucleares em paralelo a programas civis, enfrentando sanções, mas avançando tecnologicamente, segundo o SIPRI Yearbook (2024).
O Irã, sob vigilância e sanções, desenvolveu capacidade de enriquecimento significativo. A Coreia do Norte realizou seu primeiro teste nuclear em 2006.
Já o Brasil não seguiu caminho semelhante. Com foco exclusivamente energético, não desenvolveu ogivas, nem criou autonomia plena em tecnologia de reprocessamento de combustível. A base de abastecimento do país, inclusive, ainda depende de fornecedores externos: o urânio enriquecido usado em Angra 1 e Angra 2 é produzido em parceria com empresas estrangeiras, incluindo a francesa Framatome, que opera com a estatal russa Rosatom na cidade alemã de Lingen — o que adiciona sensibilidade geopolítica, principalmente em meio à guerra na Ucrânia, segundo a agência Reuters.
Nos últimos anos, houve um leve retorno do tema ao debate público. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou interesse, em 2023, pela experiência da Rússia com pequenos reatores modulares, conforme divulgado pela Folha de S.Paulo.
Na Alemanha, mesmo com o encerramento do programa nuclear, parlamentares como Katherina Reiche (CDU) indicaram, em declarações públicas, abertura à discussão sobre a energia atômica no contexto europeu, especialmente em meio à crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia.
Ainda assim, representantes do SPD e da ala antinuclear do Parlamento alemão pressionam para que o acordo de 1975 seja encerrado formalmente. A deputada Nina Scheer, porta-voz para energia do partido social-democrata, declarou, em 2023, que o pacto deveria ser substituído por uma aliança em energias renováveis, segundo a DW Brasil.
Depois de meio século, o acordo permanece em vigor, mas seu legado é objeto de debate. Em números, produziu uma usina funcional, outra inacabada, e uma conta bilionária. Em impacto estratégico, não garantiu a soberania tecnológica, nem consolidou a energia nuclear como pilar da matriz energética nacional. Em termos simbólicos, tornou-se um exemplo emblemático das dificuldades brasileiras em lidar com projetos de longo prazo — dependentes de estabilidade institucional, financiamento robusto e planejamento técnico de décadas.





