Marcos Strecker*
Lula antecipou a campanha eleitoral de 2026 ao mirar suas baterias contra a cúpula do Congresso. Primeiro, cacifou o decreto do Congresso que barrou o aumento do IOF, entrando com uma contestação no STF. Depois, reinaugurou o “nós contra eles”, que era a principal estratégia eleitoral do PT até 2002, quando a legenda mudou o discurso e adotou o “Lula paz e amor”. A moderação permitiu-lhe chegar ao Planalto, mas os desgastes (e escândalos) de 16 anos de poder definitivamente desgastaram a velha luta de classes.
Nem os companheiros representam mais os pobres (que desconfiam de sindicatos e querem vencer na vida sem paternalismos) nem os aliados do presidente podem “mudar tudo o que está aí”, já que pioraram todos os vícios do coronelismo e da corrupção, sem oferecer nenhuma modernização do Estado ou melhora dos serviços públicos, enquanto aproveitavam as benesses do poder.
A passadista campanha “taxação BBB” do PT, contra “bilionários, bancos e bets”, está em linha com a estratégia defendida por José Dirceu e pela ala radical do petismo. Os governistas tentaram ocupar as redes sociais com memes para revidar a goleada que sofreram no mundo virtual com a crise do Pix e o escândalo dos desvios do INSS. Não conquistaram um resultado “orgânico”, vamos chamar assim. O desdobramento imediato foi a “invasão” da sede do Itaú-Unibanco na Avenida Faria Lima pelos movimentos aliados de Guilherme Boulos, para desafiar “os ricos e poderosos”. Essas imagens vão dar votos em 2026?
Provavelmente não. Sem paciência para fazer o corpo a corpo com o Congresso, como nos seus primeiros mandatos, o presidente delegou a Fernando Haddad e a Gleisi Hoffmann a tarefa de segurar o Centrão e a rebelde base governista. Tática temerária (ou capciosa), já que os dois são notórios pela falta de jogo de cintura. O objetivo, se sincero, era viabilizar um aumento da carga tributária capaz de garantir os programas eleitoreiros no melhor estilo Duda Mendonça (não dá para mudar o disco?). Mas as contas não fecham.

Os especialistas apontaram que o arcabouço fiscal de Haddad não se sustentava desde que foi lançado em 2023, mesmo depois que Lula conseguiu garantir bilhões extras para sua gestão, ainda na transição (na verdade, a meta sempre foi jogar o problema fiscal para debaixo do tapete, aguardando 2027). Se o Congresso sob Bolsonaro garantiu esse colchão de liquidez, por que agora puxou o tapete?
Porque a popularidade de Lula não é mais a mesma e o equilíbrio de forças entre os Três Poderes também mudou, duas décadas depois que o petista vestiu pela primeira vez a faixa presidencial. As nefastas emendas parlamentares são uma realidade, tirando o poder do Executivo de domar seus aliados no Congresso. Podem ser aperfeiçoadas para evitar a roubalheira que já parece cada vez mais evidente, mas não vão deixar de existir. Bolsonaro não dava bola para isso e Lula acha que vai voltar à época em que tinha o controle do baixo clero. Não vai.
A briga foi parar na mesa de Alexandre de Moraes, que suspendeu na sexta (4) a nova medida arrecadatória do Planalto com o IOF e a contramedida do Congresso que anulou o aumento, e convocou uma audiência de conciliação. Não é exatamente um caminho promissor, já que pode politizar de vez o STF. A Corte já está ocupando um espaço político muito além do razoável.
Ao mudar o campo de batalha e ressuscitar a guerra nas ruas “contra as elites”, Lula pode dobrar os novos líderes do Centrão, que não querem vestir a carapuça do colapso da gestão, além de terem vários pecadilhos que podem ser expostos pelos governistas. Um sinal de recuo já acontece nos bastidores com o projeto de lei que isenta o Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
A medida tem relatoria de Arthur Lira, que foi muito mais hábil quando presidente da Câmara para pautar a agenda econômica mais “liberal” enquanto brecava as propostas de costumes medievais do bolsonarismo. Ele já acena com uma saída discreta para aprovar essa matéria que é central para a reeleição de Lula. Mais hábil que Hugo Motta, pode recolocar a campanha eleitoral nos trilhos para o próximo ano, quando a oposição (mais moderada?) espera triunfar e Lula garantir sua reeleição.
O presidente pode se dar por satisfeito com uma saída negociada no IOF, entregando os dedos (perdendo o aumento do IOF), mas salvando a mão (alívio no IR de eleitores que estão abandonando o petismo). Pode dar certo, ou não. A alternativa é voltar aos anos em que o PT ainda conseguia “reunir as massas” com claques e slogans. Hoje, essas massas mais parecem gatos pingados.
*Marcos Strecker é jornalista





