Gudryan Neufert*
Donald Trump representa o ápice caricato — porém extremamente funcional — do neoliberalismo. O ex-presidente norte-americano nasceu celebridade e cresceu empresário (também faliu) nos anos 1980, quando Wall Street virou altar, os yuppies eram profetas e o sucesso financeiro, a nova salvação. Como um boneco inflável da ideologia, ele chegou ao poder como quem volta para casa. É a reencarnação bronzeada de Ronald Reagan versão Las Vegas com Margaret Thatcher — dois ícones neoliberais.
Assim como em A Fogueira das Vaidades, de Tom Wolfe, temos aqui humanos em colapso moral tentando manter intactas suas bolhas de privilégio. “Se você quer saber o que Deus pensa sobre o dinheiro, olhe para as pessoas a quem ele o dá”, escreveu Wolfe em uma frase que poderia ser de qualquer porta-voz do FMI.
Trump, porém, não é burro. Ao contrário. Entendeu que a hegemonia hoje se mantém menos pela diplomacia e mais pela tarifa. Distribui sanções econômicas como quem joga milho aos pombos, com um sorriso cínico no rosto e boné vermelho na cabeça. Para ele, o resto do mundo — nós inclusive — não passa de uma multidão de tarifas ambulantes.
Duvida? Olhe ao redor. Você é uma tarifa. Pode ser gourmet, magra, popular, corporativa, em crise de ansiedade. Mas tarifa você é. E tarifa, no fim, é sinônimo de custo. Um ser com valor atribuído. Uma coisa com preço.
Não pense que a esquerda escapa desse enredo. O ministro Fernando Haddad é entusiasta da matemática fiscal. Desde os tempos de assessor da prefeitura de Marta Suplicy (sim, da “Martaxa”), ele ajudou a criar a taxa do lixo, que hoje se espalha pelo país como um vírus bem regulamentado. O tarifaço, aqui, também veste gravata progressista.
A diferença entre taxa e tarifa talvez seja a mesma entre direita e esquerda hoje: uma questão de marketing.
Esse cenário não é apenas perversão econômica — é um modelo de mundo. Um tipo de racionalidade. Michel Foucault, já nos anos 1970, alertava que o neoliberalismo não é só teoria econômica, mas uma forma de governar e pensar a vida.

Em Nascimento da Biopolítica (1979), Foucault escreveu: “O homo oeconomicus não é mais o homem do intercâmbio, é o homem da competição. A lógica do mercado se torna a lógica da governamentalidade.”
Ou seja: tudo se torna mensurável, monetizável, taxável. A liberdade vira produto com condições e limites. Quem não joga o jogo — não paga as taxas, não aceita os termos — é punido, excluído, descartado.
A crítica foi aprofundada por Wendy Brown em Nas Ruínas do Neoliberalismo (2019), onde mostra como o neoliberalismo destrói o público, esvazia a democracia e transforma cidadãos em clientes endividados. Afetos, corpos, direitos: tudo se submete à lógica do mercado. A punição por não seguir essa lógica vem em forma de precarização, vigilância ou violência.
Exemplos não faltam: cobranças sobre serviços públicos essenciais como saúde e educação; taxas para existir no mundo digital — assinaturas, algoritmos que punem quem não paga; sanções a países que ousam contrariar a lógica dos grandes blocos econômicos. E, claro, a privatização da liberdade: quem não pode pagar por segurança, transporte ou cidadania simplesmente deixa de existir politicamente.
Contraditório? Sem dúvida. O neoliberalismo adora pregar a ausência do Estado nas relações econômicas, mas se vale de tarifas, muros, drones, guerras cambiais e militares sempre que o mercado se mostra… sensível.
No fundo, o tarifaço global é só mais um capítulo de um livro já escrito. Em História e Consciência de Classe, o húngaro Georg Lukács chamou isso de reificação — a transformação de relações humanas em relações entre coisas. “O que caracteriza a mercadoria, acima de tudo, é que suas qualidades humanas, subjetivas e relacionais são obscurecidas, sendo tratada como uma coisa entre coisas.”
Lukács, se vivo, daria uma risada amarga, dizendo: “Viram? Eu avisei.”
Porque, no fim, todos têm seu preço. Até mesmo um país.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




