BRASIL EM FOCO
Germano Oliveira*
De repente, todo mundo fala na necessidade de pacificar o País. A principal bandeira nesse sentido está nas mãos do ex-presidente Michel Temer, que — sejamos justos — já defende a pacificação desde os tempos em que era presidente, em 2016.

O problema é que todos só querem fazer um grande acordo nacional quando seus interesses estão na mesa. Quando foi presidente, de 2019 a 2022, Jair Bolsonaro fazia de tudo para agredir o Poder Judiciário, perseguia opositores e se recusava a seguir a ciência no combate à epidemia da Covid, barrando o avanço da vacinação — razão pela qual morreram mais de 700 mil pessoas.
Desta vez, o ex-presidente só tem interesse na pacificação após ter sido condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo STF, por ter tentado dar um golpe de Estado no final de 2022. Se tivesse conseguido consumar a abolição do Estado Democrático de Direito, estaria agora sentado na cadeira de Lula e daria uma banana para os que quisessem a paz social.
Bolsonaro, na verdade, nunca quis a pacificação. Quando era jovem militar, procurava tumultuar o Exército com suas bravatas de classe, mobilizando os militares na porta dos quartéis para que reivindicassem salários mais altos.
Chegou a ser preso pelos superiores após tentar explodir uma adutora de água no Rio de Janeiro. Acabou, por consequência, sendo expulso das Forças Armadas — o que foi uma bênção para as forças.

Quem quer a pacificação?
Depois dessa desonrosa passagem pelo Exército, Bolsonaro se dedicou à carreira política. Com rachadinhas e outras práticas pouco ortodoxas, permaneceu 28 anos na Câmara sem apresentar um único projeto.
Até que, em 2018, aproveitando que o PT mergulhou na lama da corrupção e levou o presidente Lula para a cadeia, começou a bradar o discurso da antipolítica — e sua retórica colou entre os eleitores cansados da narrativa petista de bons mocinhos.
A pacificação também não era desejada por nenhum dos lados. E o País acabou mergulhado na mais tumultuada bipolarização.
A pacificação só interessa a Bolsonaro agora porque corre o risco de ir para a cadeia e passar alguns anos atrás das grades, com direito a algumas visitas íntimas da esposa, Michelle Bolsonaro, e ver a família apenas nas festas de fim de ano.
O ex-presidente quer a liberdade ampla, geral e irrestrita — mas até topa uma redução na pena. Afinal, com uma pena menor, talvez consiga a prisão domiciliar, com tornozeleira.
Resta saber se, neste momento, o Congresso — que ele sempre desrespeitou — trabalhará para livrá-lo da cadeia. Ou, em última análise, se o ministro Alexandre de Moraes — que ele enxovalhou e xingou — permitirá que tenha redução de pena.
*Germano Oliveira é Diretor do BRASIL CONFIDENCIAL.




