Laira Vieira


Laira Vieira*

Com o corpo feminino eternamente transformado no campo de batalha da mídia — e vitrine —, A Substância (2024), da francesa Coralie Fargeat (Vingança, Reality +), emerge como uma das obras mais ferozes, viscerais e filosoficamente inquietantes do ano. É terror corporal com sangue nos dentes e bisturi na ideologia. Estrelado por uma ressuscitada Demi Moore (Ghost, Proposta Indecente) e por Margaret Qualley (Era Uma Vez em… Hollywood, Pobres Criaturas), o longa não se limita a dissecar a obsessão pela juventude — ele a mastiga com fúria e cospe seus restos na tela, como quem devolve à sociedade o corpo esfolado de suas próprias exigências.

Fargeat, cineasta que ganhou notoriedade ao desafiar os limites do gênero com uma perspectiva feminista, traz à tela uma narrativa que reverbera sua experiência pessoal e sua batalha contra o etarismo — um fantasma que se materializou aos 40 anos, quando percebeu-se invisível e descartada pela indústria e pela sociedade. Sua violência gráfica não é gratuita: é grito estético, revolta encarnada. Um modo de dar forma à frustração silenciada de tantas mulheres que envelhecem à margem de um mundo que as valoriza apenas enquanto jovens, belas e comercializáveis. A diretora frisa que a nudez no filme não erotiza: ela desnuda. É a exposição crua de um corpo feminino sob o escrutínio implacável da cultura do espetáculo.

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Elisabeth Sparkle (Moore) é uma apresentadora de TV fitness que, aos 50 anos, é descartada pela emissora que a alçou ao status de ícone do autocuidado. A câmera a captura no instante em que o sistema — que a moldou, explorou e vendeu — a declara obsoleta. Humilhada, ela aceita testar uma droga clandestina: “a substância”. O efeito? Criar uma versão mais jovem, magra e “aperfeiçoada” da própria usuária. Surge então Sue (Qualley), sua “melhor versão” —rejuvenescida, mais sensual, mais comercializável, mais publicável. Mas essa nova identidade não substitui a antiga: ambas coexistem em um corpo que se divide, sangra, apodrece. O inferno é o outro — mas também somos nós.

Fargeat não flerta com sutilezas: seu cinema é cirurgia aberta. A juventude, vendida como elixir de poder, se revela aqui como um pacto fáustico. O corpo — fotografado, vigiado, retocado — se torna uma prisão sem identidade estável, um palco de versões em guerra. Em uma das sequências mais brutais, Elisabeth expulsa pedaços de si mesma. A nova forma que cria não a liberta — a devora. O resultado é uma alegoria incômoda e desconfortável sobre como o desejo de permanecer eternamente jovem pode culminar na dissolução completa do eu.

Como em Cronenberg, mas com uma fúria feminista inédita, o horror não vem de monstros — mas da lógica de performance incessante imposta às mulheres. A Substância escancara a verdade incômoda: para o patriarcado midiático, a mulher vale enquanto seu corpo é desejável. Depois disso? Que desapareça. Elisabeth não deseja apenas juventude — ela quer continuar existindo sob os olhos que a apagaram. E o que recebe é um duplo demoníaco: a beleza idealizada encarnada vira rival, sombra, carrasco.

Demi Moore, cuja trajetória pública é atravessada pela pressão estética de Hollywood, entrega uma atuação corajosa e autorreferencial. Sua presença física — marcada pelo tempo e pela própria biografia — é um manifesto em carne viva. Margaret Qualley encarna o ideal com inquietação cortante: sua Sue é sensual, sim, mas também cruel, como quem sabe que sua existência depende da aniquilação da outra. Ambas se entregam com intensidade sacrificial, num balé macabro entre o que somos e o que esperam que sejamos.

A estética do longa alterna entre o grotesco e o kitsch, refletindo o atrito entre aparência e decomposição. Algumas cenas evocam pesadelos de silicone e neon, como se um spa distópico tivesse implodido num delírio estético. Esse excesso é necessário: o terror de Fargeat não é discreto, porque o sistema que ela denuncia também não é. A juventude como fetiche se impõe por anúncios, filtros, algoritmos, bisturis — por que a arte que a denuncia deveria ser comedida?

Além da obra, Fargeat tem se posicionado como voz ativa pela representatividade e pelo respeito às mulheres no cinema. Retirando o filme de um festival após declarações misóginas do CEO, reafirmando seu compromisso com a igualdade de gênero e com o combate à misoginia estrutural. Defende, ainda, que filmes de terror — historicamente subestimados — são veículos legítimos de crítica política e merecem seu lugar nos grandes prêmios.

“O inferno são os outros ”, disse Sartre. A Substância acrescenta: o espelho também. A recepção crítica foi ambivalente — aplaudido por sua ousadia, atacado por seu “exagero”. Sintomático, o longa provoca reações adversas porque transforma o corpo feminino em acusação, não em contemplação. E, ironicamente, ele é inspirado por algo mais real do que se quer admitir: num mundo onde hormônios, IA e avatares prometem juventude eterna, a ficção apenas corre para alcançar o absurdo do presente.

No ponto onde a promessa de reinvenção colapsa sob o peso da própria mentira, o filme não se encerra — reverbera. Ecoa como alerta ácido no ruído anestesiante das telas, filtros e performances. É um filme que não apenas se assiste — se sente. Como quem raspa a própria pele com as unhas, tentando encontrar, sob a superfície, alguma verdade que ainda pulsa. E talvez essa seja sua ousadia maior: nos lembrar que a juventude eterna vendida em pílulas, pixels e promessas é apenas a versão high-tech de um velho desejo — escapar da finitude. Enquanto houver corpos femininos moldados para caber no imaginário alheio, haverá também filmes como este: que não suavizam, não edulcoram, não embelezam. Apenas expõem, e sangram profusivamente.

*Laira Vieira é Crítica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.