Laira Vieira*
Há filmes que nos embriagam de emoção, outros de estética, e há aqueles raros que nos embriagam da própria vida — com doses equilibradas de euforia, desespero, lucidez e decadência. Druk – Mais uma Rodada (2020), dirigido por Thomas Vinterberg (A Caça, Festa de Família), é um desses. Um brinde melancólico à juventude esvaída, ao conformismo entorpecido da meia-idade e à trágica beleza de continuar tentando, mesmo quando a existência já não oferece razões claras para isso.
Em um mundo que gira mais rápido do que o espírito pode acompanhar, onde produtividade é virtude e o tédio virou patologia, Druk oferece uma provocação quase herética: e se estivéssemos todos vivendo com 0,05% de álcool a menos no sangue? A trama acompanha quatro professores do ensino médio — Martin (Mads Mikkelsen, de Hannibal e A Caça), Nikolaj (Magnus Millang, de Heavy Load e Klovn Forever), Peter (Lars Ranthe, de A Royal Affair e Borgen) e Tommy (Thomas Bo Larsen, de Pusher e A Caça) — que decidem testar uma tese atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skårderud, segundo a qual o ser humano nasce com um déficit alcoólico. O grupo de amigos, então, passa a manter um leve teor etílico constante durante o expediente, acreditando que isso pode reacender a chama da espontaneidade, da paixão e da vitalidade que há tempos parecem extintas.
No início, os efeitos são surpreendentes. A criatividade floresce, a confiança aumenta, e a vida — antes acinzentada — ganha novos contornos. Mas a euforia é breve e o experimento escapa do controle. O que começa como jogo se converte em tragédia. Ainda assim, o grande trunfo da obra é não transformar essa curva descendente em moralismo barato. O alcoolismo, tema central e delicado, é tratado com rara sensibilidade, sem panfletarismo ou lições prontas. Vinterberg — cofundador do movimento Dogma 95 ao lado de Lars von Trier — aborda a dependência química como sintoma, não como falha de caráter. Seu olhar é compassivo, por vezes bem-humorado, mas jamais condescendente. Rimos, mas com a sensação incômoda de estar diante de algo muito sério.
O álcool é só a superfície; o que a película realmente escancara é o abismo existencial da vida adulta: corpos que envelhecem, rotinas que se arrastam, afetos que se esvaziam, vontades que se retraem diante da obrigação de funcionar. E, principalmente, a falácia do equilíbrio como destino da maturidade. Os quatro amigos, atolados em frustrações silenciosas, buscam no álcool não a embriaguez, mas a faísca — a capacidade de sentir novamente. Não é fuga: é tentativa desesperada de reconexão com a própria vitalidade.
Martin, por exemplo, é um homem afogado na apatia: no casamento, no trabalho, em si mesmo. Sua adesão ao experimento não é ousadia, mas grito; não se trata de celebração, mas de súplica. Os amigos que o cercam tampouco são hedonistas inconsequentes: são homens cansados demais para pedir ajuda e orgulhosos demais para admitir que estão em ruínas. Nesse pacto etílico entre eles, há uma ternura bruta — como se compartilhassem, sem palavras, a dor de serem irrelevantes no próprio enredo.
Druk também é sobre a normose — termo cunhado pelo psiquiatra Pierre Weil para descrever o adoecimento provocado pelas normas sociais. A normalidade, hoje, se tornou um fardo: exige estabilidade emocional, eficiência contínua e um otimismo forçado que beira a tirania. E, nesse cenário, o álcool — literal ou metafórico — aparece como válvula de escape, como um entorpecente que suaviza a crueldade do cotidiano. Porque sim, há algo insuportável na sobriedade quando ela revela o vazio.
E é justamente contra esse vazio que se ergue a cena final do filme — um momento que sintetiza tudo o que Druk oferece de mais pungente. Durante a celebração de formatura dos alunos, Martin se deixa levar por uma dança abrupta, sem ensaio, sem coreografia, ao som de “What a Life“, do grupo dinamarquês Scarlet Pleasure. O corpo, antes enclausurado pela rigidez dos dias, se desamarra. Mikkelsen, que foi dançarino profissional antes de se tornar ator, transforma esse instante em epifania física: cada passo, cada salto, cada giro parece declarar uma recusa ao conformismo.
Não é uma dança alegre — é uma dança necessária. Uma expressão de sobrevivência emocional. Martin não está celebrando, está ressuscitando. O gesto não representa redenção, mas movimento: ele não foi salvo, mas está em trânsito. Vinterberg, que dedicou o filme à filha Ida, falecida tragicamente durante as filmagens, parece aqui gritar com beleza aquilo que não pode ser dito em palavras. A câmera não julga, apenas acompanha o voo improvisado de um homem que, mesmo aos trancos, reencontra sua própria pulsação.
Vinterberg não se furta a mostrar as consequências dessa aposta, mas tampouco demoniza seus personagens. Não há vilões nem mártires, apenas sujeitos atravessados por dilemas que qualquer espectador reconhece: a frustração de não ter sido o que se sonhou, o tédio que corrói o casamento, a sensação de estar vivendo no modo automático. E há também uma recusa à ideia de que envelhecer é necessariamente aceitar a mornidão. Talvez por isso o final — com sua dança épica — não seja queda nem apoteose, mas renascimento. Um salto no escuro, sim, mas um salto; um gesto afirmativo diante do absurdo.
A frase de Nietzsche parece ter sido escrita para esse momento: “É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.” Druk é, em essência, esse caos — uma ode à imperfeição. Um lembrete de que, apesar do descontrole, ainda somos capazes de desejar, de errar, de nos reinventar. Mesmo tropeçando, ainda podemos dançar. E, sóbrios ou não, estamos todos tentando encontrar um motivo para brindar.
*Laira Vieira é Crítica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.




