Romildo Carlos Cirilo, aos 64 anos, foi em busca de um sonho: ter seu diploma. (Foto: Ag. Gov.)


Romildo Carlos Cirilo tem 64 anos e uma história que não cabe em boletins escolares.

Cresceu em um orfanato, estudou até a 4ª série nos anos 1970 e depois desapareceu da escola como quem se esconde do próprio futuro.

Trabalhou, sobreviveu, dormiu em caçambas. “Estudei até a 4ª série. Depois, tive que sair para trabalhar. Cresci em orfanato, fui órfão desde bebê. Dormi na rua, em caçamba. A vida foi dura”, diz ele, com a voz de quem já viu o mundo por baixo.

Continua depois da publicidade

Hoje, Romildo é aluno do CEEJA Dona Clara Mantelli, na zona leste de São Paulo. Faz parte de um grupo que cresce em silêncio: os estudantes com mais de 60 anos na rede estadual de ensino. Em setembro de 2025, eram 4.574.

Um salto de 48,8% em relação ao mesmo mês de 2023, quando havia 3.073. Na capital, são 1.413 idosos matriculados. Só no CEEJA onde Romildo estuda, são 446.

A rede estadual oferece duas portas de entrada para quem quer voltar a estudar: os Centros Estaduais de Educação de Jovens e Adultos (CEEJAs), com presença flexível, e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), com aulas regulares à noite.

Há também classes penitenciárias para pessoas privadas de liberdade.

O aluno Carlos Cirilo chega à escola para mais uma aula.

Nos CEEJAs, o aluno pode começar em qualquer época do ano, eliminar disciplinas com base em estudos anteriores e realizar avaliações presenciais. “A gente vai quando pode. Os professores ajudam muito. É uma experiência formidável”, conta Romildo.

A flexibilidade é a chave. O aluno pode ir à escola quantas vezes quiser durante a semana, tirar dúvidas com os professores e realizar as provas presenciais.

A formação no Ensino Fundamental e Médio é organizada em regime de eliminação de disciplinas — inclusive com aproveitamento de estudos anteriores, desde que comprovados.

Para se matricular, basta ter mais de 18 anos e apresentar documento pessoal, comprovante de endereço (que pode ser escrito à mão) e histórico escolar. Se não tiver, o centro aplica uma prova para definir o nível de conhecimento.

Na EJA, o caminho é mais tradicional: aulas noturnas, todas as disciplinas, dois anos para concluir o ensino fundamental e um ano e meio para o médio.

A modalidade exige presença regular e o cumprimento de todas as disciplinas.

Para os 60+, é uma opção para quem prefere a rotina escolar mais estruturada.

Romildo voltou à escola em 2023, incentivado pela esposa. “A paixão pela leitura ficou guardada comigo a vida inteira. Conversando com a minha esposa, falei que queria estudar, sentia falta de ter o conhecimento teórico, porque da vida eu já tinha”, diz.

Hoje, está finalizando filosofia e sociologia e já planeja prestar vestibular em 2026.

“Mesmo depois de formado, quero continuar frequentando a escola para participar das oficinas e sair do CEEJA fortalecido para entrar em uma universidade.”

Ele fala como quem descobriu um segredo: “Estudar é algo mágico. Podem nos tirar tudo, dinheiro, direitos, sua casa, mas o conhecimento não vão tirar nunca.” É um recado para quem pensa que já passou da hora. Para Romildo, a hora é agora.

A história dele é uma entre milhares. Gente que abandonou os estudos por necessidade, por falta de tempo, por falta de apoio. Gente que agora volta com sede de saber, com vontade de entender o mundo que nunca parou de girar. Gente que, como Romildo, sabe que o conhecimento não tem idade — e que a escola pode ser, sim, um lugar de reencontro com a própria dignidade.