Gudryan Neufert


Gudryan Neufert*

Entre tantas bobagens e linguagens violentas, uma publicação no X me chamou a atenção — e coloriu minha ro(e)tina.

Compartilho o link com você:
https://x.com/jameslucasit/status/1910507424340979772?s=46

Continua depois da publicidade

O usuário criou uma trilha visual com imagens das paletas de alguns dos principais pintores da história. A paleta física é o registro da identidade do artista — uma espécie de impressão digital da criação. Nela ainda se percebe o que Walter Benjamin chamava de “aura”: aquela presença única e irreproduzível que ele dizia ter desaparecido na era da reprodutibilidade técnica, com o avanço da indústria cultural.

Há paletas mais homogêneas; outras, absolutamente caóticas. Algumas são melancólicas. Outras, cinzentas. Outras ainda, vibrantes e carregadas de cor. Fato é: quando a tinta sai de uma paleta, nasce a arte. A paleta seria o útero; a tinta, o esperma na fecundação de uma nova tela, um novo quadro, um novo painel. E toda obra de arte tem vida própria.

No post, o autor da trilha, James Lucas, relembra que Van Gogh definia o pintor como “alguém que sabe encontrar os tons de cinza da natureza na paleta”. A do artista holandês, inclusive, carregava de um lado tintas leves; do outro, cores densas. Seguindo uma dica de Paul Gauguin, Van Gogh revolucionou sua paleta — e deixou o cinza para trás — ao partir rumo ao sul da França, em busca da luminosidade ideal. Chegou a Arles. E dali em diante, a arte nunca mais foi a mesma.

Quando o jornalismo cultural ainda tinha espaço na TV — e eu dava os primeiros passos como repórter — fui escalado para uma série de matérias com artistas plásticos brasileiros. Estava na CNT, em Curitiba, e as reportagens iam ao ar para todo o Brasil, em meados dos anos 1990. Uma era de ouro do jornalismo na capital paranaense.

A primeira reportagem foi com Sergio Ferro, artista brasileiro radicado em Grenoble, também na França. Cheguei cedo à Galeria Simões de Assis, no Batel, e pude conversar longamente com o pintor — que, nos anos 1960, teve como professor Fernando Henrique Cardoso. Na época da entrevista, FHC era o presidente da República.
O Brasil tinha outras tonalidades. Saía da ausência de cor — o período de exceção — e sonhava com um futuro menos turvo. Na paleta de Ferro, havia essa dualidade: a dor do exílio e da prisão política na juventude dividia espaço com a esperança de dias melhores.

Logo depois, veio a matéria com o gaúcho Carlos Scliar. Se nas obras de Ferro havia movimento entre tempos distintos, nas de Scliar predominava a natureza morta. Figuras estáticas, paradas, quase desfocadas.

Da paleta, o artista extrai, além das cores, a forma e a mobilidade da obra. Nada mais moderno. Não à toa, o escritor Charles Baudelaire escolheu a figura de um pintor para definir o próprio tempo.

Em O Pintor da Vida Moderna, o poeta francês escreveu:
“A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente — a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável.”

Nas diferentes paletas exibidas no X, percebe-se a passagem do tempo. As cores e os tons de Goya contrastam com os de Monet.

A mais organizada — ou compartimentada — talvez seja a de Delacroix, que retratou separadamente temas e personagens variados: Hamlet, Fausto, mitologia grega, lutas por liberdade. “Minha paleta recém-arranjada, brilhante com cores contrastantes, é suficiente para despertar meu entusiasmo”, escreveu ele em seu diário, em 21 de julho de 1850.

Hoje, discute-se o conceito de altermodernidade, que reflete a ideia de que a arte não é mais um produto final fixo, mas um processo em constante mutação. Nessa lógica, temas e figuras históricas podem surgir e desaparecer numa mesma instalação. As obras se tornam experiências que se transformam conforme o público, o espaço e o contexto cultural. Essa visão desafia a noção da obra “concluída” e enfatiza a potência do processo criativo e da mudança constante.

O artista mexicano Gabriel Orozco, por exemplo, cria esculturas que desaparecem durante a apresentação. Em suas pinturas, há sempre a tensão entre o momentâneo e o permanente.

A altermodernidade é uma resposta à complexidade da contemporaneidade — um tempo em que as narrativas lineares e os dogmas do passado dão lugar a abordagens mais plurais, híbridas e dinâmicas. Com ela, a arte se transforma em espaço de diálogo, experimentação e intercâmbio, refletindo as transformações profundas da sociedade global.

Mas, independentemente dos conceitos mais recentes, a paleta continua lá. É dela que o artista batiza uma nova época. Por mais impactantes que tenham sido os tempos passados — e por mais ameaçadores que sejam os tempos futuros — a arte sempre foi capaz de abraçá-los.

E não será diferente desta vez.

Nesse estranho tempo do agora.

*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).