Dois meses após o fechamento do Estreito de Ormuz, a economia mundial enfrenta crescente risco de recessão. O bloqueio, imposto pela Guarda Revolucionária do Irã em março e reforçado por sanções dos Estados Unidos em abril, paralisou o trânsito de petróleo, gás e derivados pelo Golfo Pérsico — rota responsável por cerca de 20% do comércio global de energia.
Desde então, países e empresas têm recorrido a estoques estratégicos e medidas emergenciais. O cenário, porém, mostra sinais de esgotamento. O preço do petróleo, já nos maiores níveis desde 2022, reage com volatilidade a cada declaração da Casa Branca. Analistas alertam que, caso o bloqueio se prolongue, os efeitos podem ser comparáveis ao choque do petróleo de 1973.
Pressão sobre consumo e inflação
Nos Estados Unidos, o aumento da gasolina já afeta o consumo das famílias. Apesar disso, o presidente Donald Trump indicou que o país está preparado para um fechamento prolongado do estreito, sustentando que o Irã não conseguirá manter suas exportações. O discurso contrasta com dados que apontam desaceleração da demanda doméstica.
Na Europa, especialistas como Thierry Bros, professor da Sciences Po, avaliam que o mundo entrou em “fase de risco sistêmico”. Para ele, políticas de subsídio ou redução de impostos são insuficientes. “É necessário reduzir a demanda de energia, sobretudo gás e querosene”, afirma.
Impactos regionais
Os efeitos já se espalham por economias mais vulneráveis. Filipinas e Madagascar decretaram estado de emergência. Nepal iniciou racionamento de combustíveis, enquanto Bangladesh impôs restrições severas ao consumo. O quadro remete às crises energéticas do passado, com risco de espiral inflacionária e desorganização das cadeias produtivas.
Avaliação dos mercados
Segundo Leopoldo Torralba, da Arcano Research, os mercados financeiros ainda tratam o bloqueio como evento temporário. “O cenário idílico que se desenha nos preços parece cada vez menos plausível”, afirma. Ele alerta para a possibilidade de escalada militar, caso os EUA ampliem a pressão sobre infraestruturas energéticas iranianas. “A probabilidade não é alta, mas tampouco desprezível”, diz.
Cenário prospectivo
Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, compara a situação ao início da pandemia de covid-19: um risco inicialmente subestimado que pode se transformar em crise global. Autoridades europeias já falam em emergência “severa” caso o estreito não seja reaberto em breve.





