À esquerda reprodução do jornal com um furto de celular em zlondres; à direita uma imagem semelhante é comum em SP. (Reproduções)


Diferente do que o senso comum sugere, o roubo de celulares não é uma exclusividade brasileira, mas um verdadeiro “imposto sobre a tecnologia” cobrado em metrópoles globais. Enquanto São Paulo lida com estatísticas que superam as 300 mil ocorrências anuais, Londres — uma das cidades mais vigiadas do mundo — também trava uma guerra tecnológica contra o crime.

O estigma derrubado

O roubo de celulares deixou de ser visto como problema restrito ao Brasil. Metrópoles na Europa e na Ásia enfrentam o mesmo desafio: o smartphone virou moeda global de troca para o crime organizado. Em Londres, a resposta do Estado subiu aos céus e acelerou nas ruas, numa tentativa de conter uma crise que, embora menor em números absolutos do que a de São Paulo, guarda semelhanças alarmantes na audácia dos criminosos.

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Celulares furtados ou roubados recuperador pela polícia na capital paulista. (Foto: SSP/SP)

O “Dia de Caça” em Londres

Segundo reportagem do jornal britânico The Independent (abril de 2026), a capital inglesa registrou queda de 13 mil furtos de celulares em um ano graças à Operação Catchclaw.

  • Drones com sensores de calor passaram a rastrear suspeitos em tempo real.
  • Patrulhas com motos elétricas Sur-Ron perseguem criminosos que usam bicicletas modificadas.

O superintendente Gareth Gilbert, líder da força-tarefa, descreve o perfil dos criminosos: “O mercado é tão lucrativo que atrai crianças de até 13 anos, que recebem cerca de £200 (R$ 1.300) por aparelho. Nosso foco é quebrar essa cadeia.”

O abismo estatístico: São Paulo em números

A escala paulista é de outra magnitude. Enquanto Londres fechou 2025 com cerca de 67 mil ocorrências, São Paulo registrou:

  • 305 mil celulares furtados ou roubados no estado.
  • 154 mil casos apenas na capital.
  • 25,4 mil aparelhos por mês.
  • 837 por dia — quase 1 por minuto.

“O cenário mostra retração em relação aos anos anteriores, mas a concentração espacial ainda é o grande desafio. Vinte distritos da capital concentram um terço de todas as ocorrências”, explica o pesquisador Erivaldo Vieira.

Diferenças de estratégia

  • Londres (Interceptação Tática): captura em flagrante, com drones térmicos e reconhecimento facial em tempo real.
  • São Paulo (Recuperação de Ativos): aposta no pós-crime, com o programa SP Mobile, que inutiliza o mercado de receptação cruzando dados com operadoras. Em 2025, cerca de 10 mil aparelhos foram devolvidos às vítimas — apenas 6% do total levado.

Enquanto Londres tenta impedir que o celular saia da cena do crime, São Paulo rastreia o caminho até centros ilegais como a Santa Ifigênia.

Rota global: o destino dos aparelhos

  • Londres: celulares seguem para centros de “limpeza” de dados e depois são exportados para África e Ásia. O comércio movimenta mais de £50 milhões (R$325 milhões) por ano.
  • São Paulo: logística híbrida. Parte vai para países vizinhos, mas o mercado interno é forte. Aparelhos são desmontados para revenda de peças ou usados em tentativas de desbloqueio de contas bancárias e aplicativos.

Os modelos na mira

  • iPhones (Apple): líderes absolutos, pelo valor agregado e liquidez.
  • Samsung Galaxy (S e Z): visados pelas telas de alta qualidade.
  • Modelos de entrada: em São Paulo, abastecem o mercado de peças de reposição.

O “trabalho” das gangues

O crime se estruturou como uma corporação clandestina:

  1. Puxadores: jovens ou menores de idade que executam o roubo.
  2. Captadores/Logística: motoqueiros recolhem os aparelhos minutos após o crime.
  3. Técnicos de desbloqueio: especialistas em phishing e desmonte.
  4. Receptadores de cúpula: lavam o dinheiro e organizam a venda em massa.

“O mercado é tão lucrativo que atrai jovens que veem no crime uma forma de ‘trabalho’ com remuneração imediata”, reforça Gareth Gilbert.

Em São Paulo, a Polícia Civil alerta: enquanto houver quem compre celulares ou peças sem procedência, a engrenagem continuará girando.