A qualidade da formação médica e a necessidade de um exame de proficiência para o exercício da profissão no Brasil foram os temas centrais de uma entrevista com o Dr. Antonio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), ao Jornal BC TV, do Portal BRASIL CONFIDENCIAL, nesta sexta-feira (18). A discussão ganha relevância diante da votação, nesta semana, na Câmara dos Deputados, do regime de urgência para a regulamentação da prova.
O Dr. Gonçalves, que também é membro titular da Academia de Medicina de São Paulo e professor da Santa Casa de Misericórdia da capital paulista, detalhou a luta da categoria pela implementação da avaliação, uma antiga reivindicação dos profissionais. Segundo ele, o exame, uma vez regulamentado por lei federal, seria similar ao exame da OAB, que habilita o profissional a passar de bacharel em Direito a advogado.
Durante a entrevista aos jornalistas Germano Oliveira e Camila Srougi, Gonçalves criticou a flexibilização do processo de revalidação de diplomas estrangeiros. “O governo federal autorizou esses médicos a trabalharem no país sem usar o exame Revalida, exame que é feito em todos os países para poder exercer a atividade da medicina”, afirmou.
Outra preocupação levantada pelo presidente da APM foi a queda na busca pela residência médica, antes considerada um passo quase obrigatório na formação. “Na minha geração era assim. A gente fazia curso médico de seis anos e obrigatoriamente tinha de fazer a residência”, relembrou. Ele citou dados alarmantes da Universidade de São Paulo (USP): “Um dado que nós temos neste ano do curso médico, na Universidade de São Paulo — dados que consegui com a diretoria da faculdade de lá, da USP — é que 40% dos alunos egressos da universidade não quiseram fazer residência. Não prestaram o exame.”
Gonçalves atribui essa mudança a fatores financeiros, como a atratividade dos plantões em comparação com a baixa remuneração da residência. “O salário do médico residente é na faixa de R$ 4 mil, sem os descontos. E ele recebe hoje, num plantão de 12 horas, R$ 1.500. Quando faz dez plantões, vai ganhar R$ 15 mil, quatro vezes o que ganharia na residência. Vai ter vários dias livres. Vai ter qualidade de vida”, ponderou. Ele enfatizou a necessidade de conscientização dos jovens sobre a importância da residência para uma formação sólida e o desenvolvimento da saúde e da pesquisa no país.
“Precisamos mudar a cabeça desses jovens, no sentido de conscientizá-los da importância de uma boa formação, para termos uma boa saúde, para progredirmos, para termos pesquisa e realmente colocarmos o país no lugar que ele deveria estar”, declarou.
Interiorização médica
O Dr. Gonçalves defendeu também a interiorização dos médicos e a diferenciação salarial para áreas de maior necessidade. Ele destacou a residência em medicina de família e comunidade, que, apesar de sua importância, apresenta alta ociosidade. “Nós temos aproximadamente cinco mil vagas de residência do médico de família. Temos cerca de 40% de ociosidade, e ela não é procurada. Seria uma das residências que não deveriam pagar os R$ 4 mil, deveria pagar mais”, sugeriu.
Para Gonçalves, o país precisa de médicos com formações distintas, e a remuneração deve refletir essa diversidade e as necessidades regionais. “Não se pode colocar tudo no mesmo patamar, porque o país precisa de médicos diferentes. Então eles têm de ser remunerados de maneira diferente”, afirmou. O presidente da APM propôs que os profissionais com remuneração diferenciada poderiam “devolver isso para o país indo para regiões distantes, depois de formados, depois da sua residência, que necessitem dos trabalhos deles. Interiorizar o médico da mesma maneira que se interioriza os magistrados”.
No entanto, o presidente da APM ressaltou que a interiorização precisa ser acompanhada de uma infraestrutura mínima. “Não adianta você colocar o médico lá no Xingu com estetoscópio no pescoço para atender casos de intoxicação por mercúrio. Como ele vai fazer diagnóstico disso, se não tem um laboratório mínimo? Falta realmente uma política de Estado para interiorização do médico. Não é com mais especialistas que se vai resolver isso”, pontuou.
Periodicidade do exame de proficiência
Questionado sobre a periodicidade do exame de proficiência, o Dr. Gonçalves defendeu a implementação de um “teste do progresso” nas faculdades. “Veja, existe uma coisa que as faculdades têm que adotar, que é o teste do progresso, e estamos tentando convencer também as residências a fazerem isso. Então ele faria uma avaliação na sua escola, no segundo, quarto ou sexto ano, com uma prova já de nível de sexto ano. O que ele responde no segundo, o que responde no quarto. Ver se está progredindo na sua formação”, detalhou.
Ao final do curso, Gonçalves ressalta a importância de uma prova de proficiência. “Ao final há de haver a prova de proficiência, porque a grande maioria das escolas não tem essa condição”, explicou. Ele enfatizou que a avaliação deve ser feita por um grupo de profissionais de elevada competência, envolvendo o Ministério da Educação, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira (AMB).
“Nós somos uma das federadas (APM, em São Paulo). Temos federadas em 27 estados, a grande maioria com professores universitários. Temos 54 sociedades especializadas que, na época da Covid — para dar um exemplo — realmente traçaram mais de 40 diretrizes que modificaram o curso da pandemia”, destacou. Ele citou o papel da AMB no combate ao negacionismo e na defesa da vacina durante a pandemia, demonstrando a expertise da instituição. “Temos gente competente para fazer os exames. Esse exame é aquele voltado para quem vai fazer clínica médica, cirurgia, ginecologia, pediatria e saúde cognitiva. Não vai perguntar nada de grandes especialidades. Vai aferir a qualidade do médico geral”, concluiu.
O debate sobre o exame de proficiência para médicos continua, e a recente votação na Câmara dos Deputados indica que o tema ganhará ainda mais destaque nos próximos meses, quando a matéria for colocada em votação no plenário do Congresso Nacional.
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