Roberto Campos Neto, vice-chairman e chefe global de Políticas Públicas do Nubank, em disrcusso no LIDE França. (Foto: Reprodução)


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O ex-presidente do Banco Central (BC) e atual vice-chairman e chefe global do Nubank, Roberto Campos Neto, afirmou nesta quinta-feira (27) que o Brasil necessita de um “choque positivo na área fiscal” para que a taxa de juros básica do país possa, de forma sustentável, atingir o patamar de um dígito.

As declarações foram feitas durante sua participação no França Fórum, evento promovido pelo Grupo Lide em Paris, pelo empresário João Doria.

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Em sua análise, Campos Neto reconheceu que as condições econômicas atuais podem abrir espaço para a flexibilização monetária no futuro próximo, mas condicionou uma queda mais relevante e de longo prazo a uma ação vigorosa e crível do governo na gestão das contas públicas.

“A gente acredita que em algum momento vai abrir espaço, em algum momento no futuro recente, no futuro próximo, vai abrir espaço para uma queda de juros, que todos estão ansiosos. Mas eu acho que a gente precisa ponderar que para a gente ter uma queda de juros que faça diferença em termos de produtividade e de planejamento de longo prazo, a gente precisa ter um juros no Brasil de um dígito, e para ter um juros no Brasil de um dígito, a gente vai precisar trabalhar fortemente em um choque positivo na área fiscal, senão é muito difícil acreditar nos juros de um dígito. Então a gente, sim, vai ver uma queda de juros, mas eu acho que para ter uma queda mais relevante precisa essa segunda parte”, ressaltou o executivo.


Elogios a Galípolo

Ao iniciar sua apresentação, Campos Neto fez uma deferência ao seu sucessor, Gabriel Galípolo, destacando o trabalho da atual gestão em meio ao debate público sobre a política monetária. “Vou começar aqui com um comentário e que me perdoe o Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, que tem feito um trabalho espetacular, irretocável, mas eu estava comentando com o João (Doria) e com a senadora Cátia (Abreu) como é bom quando alguém reclama dos juros e não olha para mim”, brincou.

O economista dedicou parte de sua análise à complexa “nova ordem global”, marcada por fatores que elevam o custo do capital e o prêmio de risco. Ele apontou a “polarização política” e o papel da mídia social como geradores de “uma erosão nas instituições em grande parte dos países”, o que, por sua vez, “obviamente eleva o custo do dinheiro, eleva a insegurança, que no final das contas eleva também o prêmio de risco dos países”.

Outro ponto de atenção global citado foi a política econômica: “A gente tem, pela primeira vez, uma dissonância entre a política monetária e fiscal em vários países do mundo”.

Ele criticou a dificuldade dos governos em reverter os programas de incentivo pós-pandemia, resultando em juros caindo em alguns lugares, “mas ainda com a política, vamos dizer assim, fiscal expansiva”.

Somam-se a estes fatores o envelhecimento populacional, a baixa produtividade global – “com exceção dos Estados Unidos e mais um ou dois países” – e um “grande aumento de impostos”, concentrado “em capital, ou em estoque de capital ou em formação de capital”.

O ex-presidente do BC alertou que há custos crescentes com geopolítica e clima. “Nós temos um gasto de segurança, de defesa muito maior pelos temas geopolíticos, nós temos um custo do meio ambiente que se mostra um pouco mais elevado do que nós imaginávamos anterior e um custo da reestruturação da cadeia comercial também um pouco mais alto”, concluiu.

Reformas e atividade econômica

Apesar dos ventos contrários globais, Campos Neto elogiou a agenda reformista do Brasil, destacando o papel do Congresso.

“O Brasil é um país que fez muitas reformas. Eu, quando na pandemia andava e conversava com meus amigos do Banco Central, ninguém acreditava que o Brasil fazia tanta reforma durante a pandemia. O Congresso brasileiro foi muito reformista, muitas reformas, inclusive a autonomia do Banco Central.”

Sobre a atividade econômica, ele projeta uma “desaceleração” no curto prazo. “Em termos de atividade, a economia brasileira deve desacelerar um pouco. A gente prevê uma queda de 0,9% no terceiro trimestre, mas com um crescimento anual ainda entre 2,1% e 2,2%.”

O mercado de trabalho, no entanto, é um ponto de atenção para a inflação. O executivo notou que o Brasil passa por um fenômeno global em que o mercado de trabalho está “razoavelmente apertado”, com empresas “mencionando dificuldades de contratar”. Embora o baixo desemprego seja positivo, “existe um medo de que isso gere uma pressão inflacionária”. Ele pontuou que a inflação de 12 meses está em “4,65%”, e, apesar de ter “melhorado na margem”, ainda está “bastante acima da meta”.

Tecnologia e inclusão financeira

Passando para a área de tecnologia, Campos Neto defendeu a inovação como o principal motor de inclusão. “Eu acho que a coisa mais importante é que a tecnologia é o instrumento mais democratizante do mundo. A gente consegue, através de tecnologia, oferecer serviços mais baratos, incluir mais pessoas, a gente consegue diminuir custos, a gente consegue aproximar distância.”

No setor financeiro, ele destacou os avanços brasileiros. “O que a tecnologia no mundo de finanças foi capaz de fazer é gerar uma enorme inclusão financeira. Quando a gente pensa o que o Brasil fez, o Brasil gerou 72 milhões de pessoas que passaram ao sistema financeiro, em termos de inclusão financeira, foram 50 milhões de pessoas que foram incluídas no sistema bancário.”

Segundo Campos Neto, o Brasil possui um sistema de intermediação financeira “muito digital”, com “94% da intermediação financeira digitalizada”, superando Estados Unidos e Europa. Ele fez um forte apelo à proteção da agenda de inovação do BC, citando o papel das fintechs na redução de custos e na democratização do crédito. “A gente não pode cair na falsa narrativa que a inovação gerou insegurança para a população. Quando a gente olha, por exemplo, os índices de segurança do PIX, eles são melhores que índices de segurança de vários sistemas de transferência de países desenvolvidos.”