Quase meio século depois, o Rio ainda lembra o caso Cláudia Lessin Rodrigues, símbolo da violência contra mulheres e da impunidade nos anos 1970.
A noite da festa
No dia 23 de julho de 1977, Cláudia Lessin Rodrigues, jovem de 21 anos e irmã da atriz Márcia Rodrigues, foi convidada para uma festa em um apartamento na zona sul do Rio. Entre os presentes estavam Georges Khour, cabeleireiro conhecido da alta sociedade carioca, e Michel Frank, ligado ao tráfico de drogas.
Segundo as investigações, dentro daquele apartamento, Cláudia foi estuprada pelos dois homens. Em seguida, foi obrigada a ingerir uma alta quantidade de drogas, o que provocou sua morte.
A ocultação do corpo
Para tentar esconder o crime, os acusados colocaram o corpo nu de Cláudia em um carro Brasília e o levaram até as pedras do Chapéu dos Pescadores, na Avenida Niemeyer.
Um saco cheio de pedras foi amarrado ao pescoço da vítima, numa tentativa de afundar o corpo no mar.
Dois dias depois, em 25 de julho, pescadores encontraram o cadáver. Um operário que dormia em um barracão próximo disse ter visto dois homens arrastando algo pesado para fora do carro. Ele anotou a placa e, ao ouvir sobre o corpo, denunciou à Rádio Globo, ajudando a polícia a chegar aos suspeitos.
A investigação e o julgamento
A polícia rapidamente apontou Khour e Frank como principais envolvidos. O crime foi enquadrado como homicídio qualificado, com agravantes de impossibilidade de defesa da vítima.
Michel Frank: Fugiu para a Suíça antes de ser julgado. Nunca respondeu pelo crime no Brasil. Em 1989, foi morto a tiros em circunstâncias ligadas ao tráfico internacional.
Georges Khour: Foi levado a julgamento em 1980, num dos júris mais longos da história do Rio. Apesar das evidências, acabou condenado apenas por ocultação de cadáver, recebendo pena de 3 anos e 4 meses de prisão. Após cumprir a pena, desapareceu da vida pública e nunca mais foi visto.
O impacto
O caso Cláudia Lessin Rodrigues chocou o país na época. A violência sofrida dentro de um apartamento, seguida da morte por ingestão de drogas e da tentativa de ocultação do corpo, expôs a vulnerabilidade das mulheres e a fragilidade da justiça brasileira.
A fuga de um dos acusados e a condenação branda do outro reforçaram a percepção de impunidade e marcaram profundamente a memória criminal da década de 1970.
Quase meio século depois, quando novos casos de estupro e feminicídio surgem no noticiário, o nome de Cláudia ainda ecoa como um alerta: a história parece se repetir, e a luta contra a violência de gênero continua sendo uma ferida aberta na sociedade brasileira.




